Foi uma hora artística. Deitado na mesa deslizante, onde o corpo pousava para se examinar o coração, ouvi a enfermeira comentar, entre dentes: bailarina. Descobri que uma das minhas veias pertencia a uma companhia de bailado e que dançava um pas de deux com alguém que não se manifestou, o que frustrava a enfermeira na sua tentativa de lhe abrir um buraco por onde entrasse um cateter. Como a vida é feita de injustiças, perante a falência diante daquele vaso sanguíneo, escolheu outro menos dançante e vingou-se: perfurou-o e cateterizou-o, sem que um esgar de culpa ou de piedade lhe assomasse no rosto. Depois, começou a enviar-me estranhas substâncias para dentro da corrente sanguínea. Apesar de o bailado venoso ter terminado, tive direito a performance musical, um concerto de banda magnética, no qual eu, como público, fui deslizado, na mesa de exame, para dentro de um túnel, onde fui convidado — a verdade é que recebi uma injunção — a participar. Então, dirigido por um maestro abscôndito, cuja face nunca vi, começou o concerto de banda magnética, com sonoridades que me confundiram. Não sabia se tinham sido criadas por Pierre Schaeffer, por Karlheinz Stockhausen ou por Iannis Xenakis, ou por outro autor que não me ocorre. Berio? Não sei. Enquanto ouvia a estridência lancinante da máquina e me revolvia para identificar o autor, tomei a decisão de prestar mais atenção à vanguarda da música erudita, para que, na próxima vez que seja intimado a um concerto, saiba identificar as composições e os seus autores. As peças eram minimalistas, não no sentido de música minimal repetitiva, mas no de curta duração. Por vezes, quando uma composição terminava, uma voz feminina — cheguei a pensar que era digna que me apaixonasse por ela (foi nesse momento que percebi porque um dos técnicos me ordenou tirar a aliança que uso no anelar da mão esquerda) — solicitava a minha participação: inspire… expire… retenha a respiração. Apesar de os imperativos não serem particularmente sensuais, eu inspirava, expirava e retinha a respiração. Então, ouvia-se uma rápida peça musical, que imitava, por vezes, tiros num filme do faroeste. E eu estava ali, de respiração suspensa, imerso na musicalidade da peça, até que uma voz, agora masculina, me dizia: pode respirar. Fiquei perplexo. Quando se tratava de reter a respiração, recebia um imperativo categórico, uma ordem absoluta; mas, quando se tratava de retomar a respiração, apenas me davam uma sugestão: o “pode respirar” era dito como se isso fosse uma escolha que eu tivesse de fazer, caso me apetecesse. O que me permite estar aqui a escrever foi interpretar o “pode respirar” sempre como uma ordem e não como uma opção. Quando acabou o concerto, não aplaudi. Por isso, imagino, veio uma equipa: fez deslizar a mesa para fora do túnel, tirou-me o cateter e pôs-me a andar para fora da sala de concerto. Que me fosse vestir como deve ser, e indicaram-me o caminho da rua. Estou com curiosidade, porém, é com o preço do concerto. Informaram-me, mas não retive; ainda estava imerso na música que tinha acabado de ouvir. Segue por email, asseguraram-me. Aguardo.
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