Começa hoje, o mais cruel dos meses, aquele que gera lilases na terra morta e mistura memória e desejo. Esta é uma homenagem mais digna do que aquela que se prestava no dia um de Abril, declarando-o como dia da mentira. É provável que os órgãos de comunicação já não mantenham uma antiga prática de contar uma mentira que, no dia seguinte, era desmentida. Muitas vezes as mentiras eram de tal maneira infantis que se mostravam no que eram. Se a prática desapareceu, talvez a razão seja que contar mentiras passou a ser um exercício quotidiano e não uma graçola sem graça tratada como efeméride. Então, outrora, só se mentia a 1 de Abril? Não, claro que não. Mentia-se todos os dias. Contudo, essas mentiras chocavam com a ideia reguladora da verdade. Ainda eram uma homenagem à verdade. A mentira de hoje é diferente, pois não tem qualquer relação com a verdade. Aliás, esta deixou de ter qualquer interesse. Cada um crê no que lhe apetece e, geralmente, as pessoas gostam mais da mentira do que da verdade. Há uma clara razão estética para isso. A verdade é uma e só uma, o que introduz uma insuportável monotonia. Sobre o mesmo assunto, o número de mentiras é, em potência, infinito. Escolher a mentira preferida é uma agradável tarefa, que mobiliza a imaginação e confere a cada um uma sensação de realização, quase como se fosse um artista. Também T. S. Eliot estaria a mentir quando escreveu que Abril é o mais cruel dos meses, mas um poeta é um mentiroso, e mente tão completamente que… O resto toda a gente sabe, ou devia saber, o que, no registo de hoje, é a mesma coisa.
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