Por vezes, como ainda há pouco, enquanto caminhava por ruas de Lisboa, penso que estes textos são o meu Livro do Desassossego. Depois, penso melhor e mudo de opinião. Talvez estes textos possam ser o meu livro do sossego. Posso ser tão inexistente quanto Bernardo Soares; afinal, não passo de um narrador com relações conflituosas com o autor. Porém, não sou um moderno, nem sofro dos males da modernidade que assombraram Pessoa e Soares: não fui dotado de uma consciência excessiva e, por isso, paralisante. Talvez nem tenha consciência; não sofro de uma desadequação estrutural à existência. Posso mesmo não existir; quanto ao eu, não sofre da fragmentação dramática que assolava o de Pessoa. Aqui, que ninguém nos ouve, posso dizer que nem sequer tenho um eu; se alguma vez o tive, vendi-o. Também o tédio metafísico não me incomoda. Os meus tédios são todos físicos, mas, mesmo esses, são coisas passageiras a que não dou importância, nem os acho dignos de dramatização. O resultado disto é que sou um ser sossegado, sem estados de alma, nem angústias ou náuseas, e a metafísica dispõe-me bem, tão bem quanto me dispunha, em criança, as aventuras de índios e cowboys, as vitórias do meu clube de eleição, religião de que me tornei não praticante, e o Festival da Canção. Também gosto de chocolate, mas não o confundo com a metafísica.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.