Deixei há muito de ver noticiários, telejornais, como lhes chamam, e agora começo a desprender-me do que vem nos jornais. A realidade incomoda-me, dir-se-á. Na verdade, a realidade sempre foi coisa arisca e dada a incomodar os pobres transeuntes desta caverna. Contudo, mais do que me incomodar, ela faz-me bocejar, e sono já eu tenho que baste. A hipótese mais plausível, segundo a opinião comum, é que estarei a desligar-me da vida. Contudo, tenho outra tese. Desligado da vida estive durante todo esse tempo em que prestei atenção às notícias, cultuei a realidade e sacrifiquei no altar dos acontecimentos. Agora, encolho os ombros e digo: quero lá saber. Então, sinto a vida a fluir, secreta, indiferente, mais pura e mais poderosa. Hoje, deu-me para esta exibição teatral, para pôr a máscara do indiferente e arvorar um ar nauseado, como se tivesse voltado àqueles anos em que navegava nos rios de águas lodosas que eram o absurdo de Camus e a náusea de Sartre, tudo isso, também, uma mascarada. Talvez não seja possível viver de outro modo. Se retiro a máscara do cidadão atento à realidade, logo aparece a do indiferente. E, se retiro esta, logo aparecerá outra. Dos outros não sei, mas de mim sei que não sou senão uma colecção de máscaras. Devia vender algumas e ir passar férias para um lugar onde o Carnaval nunca acabasse, ou então ficar onde estou. A diferença não seria nenhuma.
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