Por vezes, sinto necessidade de mudar de cadeira do escritório. Faço-o quando ela começa a ser incapaz de me poupar as costas. Por norma duram muitos anos. A que tenho terá uns quatro anos. Não sei bem. Talvez, na altura da compra, me tenham explicado o funcionamento de todas aquelas manivelas e manípulos com que essas cadeiras, mesmo por baixo do assento, são decoradas. Ela veio para casa já afinada à minha posição e tem cumprido, com esmero, a sua função. Se me doem as costas, a culpa não é dela. Contudo, havia uma sombra. Por mais que mexesse nas manivelas e manípulos, as costas da cadeira eram inamovíveis. Sonhava, por vezes, recliná-la para dormir uma sesta. Nada. Pensava: sou estúpido. Ou comprei uma cadeira que não mexe as costas, ou não consigo desvendar o modo como isso se faz. Ainda por cima, com larga experiência em cadeiras que não recusaram, em momento algum, inclinar-se. Tinha desistido. Hoje porém, inadvertidamente, mexo num manípulo. Deslizou. Fiquei curioso. Procuro rodá-lo. Consigo e, milagre, as costas da cadeira cedem, e eu reclino-me como se fosse dormir. Claro que não fui. Decidi escrever este texto. Não interessa a ninguém, mas assinala o momento em que descubro como posso dormitar com mais comodidade à secretária. As minhas relações com a cadeira eram tensas, mas apaziguaram-se, apesar de ela ter sussurrado qualquer coisa sobre a minha estupidez. Que burro, terá dito. Perdoo-lhe, desde que continue a reclinar-se. É preciso estar focado no que interessa.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
quarta-feira, 10 de junho de 2026
Buracos no tempo
Quando saí, hoje de manhã, não havia gente pelas ruas. Aproveitaram o feriado para se esconderem, para se retirarem da praça pública. Talvez seja para isso que servem os feriados. São esconderijos no tempo. Abrem buracos na teia do calendário e as pessoas, caso tenham siso, aproveitam-nos. Já ninguém – isto será uma generalização precipitada – distingue os feriados religiosos e o cívicos. Olham para eles como buracos do tempo e ficam gratos. As pessoas cansam-se de exibir o rosto aos outros, de lhes mostrar o corpo e de ter de gastar palavras. Benditos feriados. Contudo, este é um equívoco. O dia de Portugal devia ser o 5 de Outubro. Foi a 5 de Outubro que começou a Monarquia portuguesa, foi a 5 de Outubro que começou a República portuguesa. Dito de outra maneira: foi a 5 de Outubro que Portugal começou e foi a 5 de Outubro que Portugal recomeçou com outra cara. Talvez já tenha escrito isto. Desde 2017 e ao fim de 2560 entradas, é possível que não pare de me repetir. Se o fiz, ninguém quis saber e pôs fim a essa irracionalidade de um país nascer numa data e ter o seu dia noutra. Nem acabava com o 10 de Junho. Era dia de Camões e da Língua Portuguesa. Contudo, os agentes políticos desconfiam dos portugueses, têm medo de que se revoltem por haver um dia dedicado apenas a um escritor e à língua que ele inventou. Em resumo, estou a ficar um velho rabugento, a protestar com coisas que ninguém quer saber, nem eu, nem Camões, nem Portugal, nem a Língua Portuguesa, coitada, martirizada pelo Acordo Ortográfico de 1990, que a rebaixou de tal modo que ela perdeu o ânimo e nem protesta. Mas devia.
terça-feira, 9 de junho de 2026
Amores fáceis
Por norma, não sou um consumidor do tipo de ficção escrita pelo norte-americano H. P. Lovecraft. Descobri, no entanto, uma frase sua que não teria horror em fazer minha: Tudo o que amei está morto há dois séculos. Encontrei-a numa revista, cujo nome e natureza omito. Para acertar o passo com o escritor teria de escrever: Tudo o que amei está morto há três séculos. A frase não seria verdadeira, claro, mas teria impacto num eventual leitor de orientação conservadora. Viver antes do triunfo dos valores do Iluminismo não seria para mim e, provavelmente, para Lovecraft boa ideia. Os tempos eram duros para a maioria das pessoas e eu estaria, por certo, entre essa maioria. Muitos cultores do passado, não todos, fazem-no porque vivem num presente que lhes ofereceu a oportunidade de uma vida que esse passado lhes recusaria. Há nisto uma batota existencial. Diz-se amar uma coisa sem correr qualquer risco de ser confrontado com ela. A culpa disto é não haver viagens no tempo. Quem amasse, por exemplo, a vida do século XVII, seria enviado para esse tempo e para a condição social que então era a dos seus antepassados. Contudo, a realidade foi construída de modo a evitar que as pessoas amantes desses passados tenham de provar o seu amor. E assim podemos proclamar que tudo o que amamos está morto desde que a roda foi inventada.
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Guerra de nomenclaturas
Oiço um sino, mas este não entra em comandita com o tempo para enterrar o dia. Esse era o de Burnt Norton, do primeiro quarteto de Eliot. Aquele que ressoa nos meus ouvidos é um sino mais prosaico e, por certo, mais pobre. Talvez seja um sino da anunciação, mas não descortino o que ele anuncia. Se fosse mais tarde ou noutra época do ano, seria o anúncio do crepúsculo, mas agora ainda falta muito tempo para que chegue a antecâmara da noite. Há, na rua, uma luz vibrante, batida pelo vento. As sombras crescem lentamente sobre o chão, enquanto oiço a minha neta mais nova, vinda por uns dias, dirimir uma batalha contra a Matemática. Vai ter aquilo que no meu tempo de estudante se chamava exame, mas agora, no final do nono ano, que dantes era o quinto, tem o nome de prova final. Nunca compreendi o que vai na cabeça das pessoas que inventam estas substituições de nomenclatura. Passei o meu tempo escolar a fazer exames, nunca me incomodou o nome. Talvez o supremo arquitecto destas alterações pense que adolescentes de 14 ou 15 anos fiquem traumatizados com a palavra exame, por ela vir do latim. Então, substituíram-na por uma expressão cujas palavras também têm a sua origem no latim, mas como são duas o efeito traumático de cada uma é anulado pela outra, e os adolescentes entram na sala, despreocupados, como se fossem à praia, que dali não vem mal ao mundo. Pior seria fazer um exame, agora uma prova final, significa que se tem de passar pela provação de estar sentado e depois tudo acaba, pode-se ir para a praia ou almoçar com os amigos. O sino parou, a luz continua a vibrar. Pertenço a outra era, penso, onde os sinos tocavam mais vezes, enterrando dias e noites, enquanto fazia exames, cujo começo e fim era desencadeado pelo troar de uma sineta ou de uma campainha, ou sei lá de quê. Vou procurar um restaurante para levar a exame a pobre adolescente, cheia de provas finais, desejosa de praia.
domingo, 7 de junho de 2026
Voar e cantar
É inusitado um filósofo – o canadiano Charles Taylor – começar com uma confissão, ainda por cima uma confissão de impotência, um tratado. Não será preciso, porém, andar há muitas décadas sobre este planeta para saber que, no momento da confissão, a impotência está ultrapassada. Trata-se de uma das suas mais importantes obras Sources of the Self (As Fontes do Self, na tradução brasileira). O Prefácio começa assim: Foi muito difícil para mim a redacção deste livro. Ela se prolongou por vários anos, e mudei algumas vezes de ideia quanto ao que deveria ser nele incluído. Isso se deveu, em parte, ao motivo tão comum de que, por um longo tempo, eu não tinha a certeza do que queria dizer. Ora, o que me interessa não é a confissão do autor, mas a sua experiência de não ter a certeza do que queria dizer. Isso acontece comigo sempre que me sento para escrever seja o que for. Não sei o quero dizer. Não tenho objectivos, não tenho um alvo a atingir. Começo a escrever e a escrita vai ocupando o seu espaço. Esta história confessional de Taylor deve ser interpretada de modo metonímico. Toma a parte pelo todo. O todo é a vida, a parte é a escrita. Posso dizer que não apenas nunca sei o que quero dizer, mas também nunca soube o que queria da vida. Escrevi-a sem objectivos, conforme os vocábulos me surgiam. Contudo, isto não é o mais grave. Mais grave do que uma pessoa não saber o que quer da vida é não saber o que a vida lhe quer. Suponho que a vida ao trazer alguém a ela há-de ter alguma finalidade, há-de querer alguma coisa daqueles a quem chama. Tenho meditado não poucas vezes sobre isso e contínuo como no princípio. Não sei o que a vida quer de mim. Chego mesmo a cair na tentação céptica de dizer que é impossível saber o que vida quer de quem quer que seja, para não falar dos momentos mais escuros que, num ateísmo biológico, nego obstinadamente que a vida queira alguma coisa de alguém. E se ela não quer nada de mim, o mais sensato é não querer nada dela. Não lhe pedir nada, ignorando-a na desfaçatez do seu silêncio. Hoje é domingo, o sol brilha. O vento faz dançar as folhas das acácias, enquanto os pássaros meus vizinhos cantam. Parecem felizes por não saberem o que querem da vida ou o que a vida quer deles. Voam e cantam.
sábado, 6 de junho de 2026
Vícios privados
Bernard de Mandeville era um astuto observador da sociedade. Tão astuto que escreveu uma obra a que deu o nome de A Fábula das Abelhas. Isto no início do século XVIII. Não foram poucos os que indignaram com o escrito. A obra era uma constatação da natureza da sociedade em que vivia e, acima de tudo, uma profecia. A tese central da obra defende que os vícios privados trazem benefícios públicos. As pessoas ao agir por ganância, vaidade, inveja e egoísmo vão dinamizar a economia e tornar a sociedade mais próspera, o que conduzirá a que todos beneficiem da corrupção dos costumes, dos vícios privados. Por outro lado, a conduta virtuosa tornará a sociedade cada vez mais pobre e irrelevante. Pensei tudo isto ao olhar pela janela, para os carros que iam passando sem pressa pela avenida. Depois, concluí que não é benéfico olhar pela janela aos sábados. O que se vê detona pensamentos que não se devem ter. Temos o dever de ser caridosos e não ver nos outros a vaidade que têm ou a inveja que ostentam. Depois, deve-se seguir a antiga máxima: quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Não sei se é boa ideia juntar no mesmo texto uma passagem evangélica e a fábula das abelhas, mas foi aquilo que me ocorreu.
sexta-feira, 5 de junho de 2026
Mentir a si mesmo
Há muito que prefiro ler ebooks do que livros em papel. Existem várias razões que não vou trazer à colação. Basta-me uma: tenho prazer em ser iludido. Explico: a letra num livro de papel é inalterável. Tem uma dimensão eterna. Num ebook, pode ser manipulada, dentro de limites, claro. Aumento-lhe a dimensão e fantasio que os meus olhos estão perfeitos. É uma mentira a si mesmo, mas que não traz mal ao mundo – quem se importa com essa mentirola? – e nem a mim. Somos seres frágeis e não suportamos demasiada realidade nem excessivas verdades. Por isso, mentir a si mesmo não é uma falta moral, mas um exercício terapêutico. O caso seria grave se tentasse iludir a oftalmologista que me olha no fundo dos lhos. Ela, porém, é inexpugnável. Pauta a sua observação pela mais estrita racionalidade e não me dá tempo para fantasias. O curioso, porém, é que ela também deve mentir a si mesma, pois, como eu, recorre a ebooks. E, por certo, quando lê, aumenta o tamanho da fonte e imagina que vê perfeitamente. Sei que ela lê ebooks porque já discutimos sobre eReaders. Contudo, nenhum confidenciou a que fantasias se entrega ao ler. Isso evidencia que a relação se mantém na estrita dimensão de médica – paciente, prestadora de serviços – cliente. E é assim que se deve manter. Aliás, o melhor é que as nossas fantasias se mantenham estritamente privadas, que sejam uma mitologia a que mais ninguém tenha acesso. O pior que pode acontecer é deparamo-nos com alguém que quer partilhar publicamente as suas fantasias. Não estarei eu a partilhar uma fantasia? Não, pois sou um narrador, e um narrador não existe. Ora, só o que existe pode fantasiar coisas que não existem.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Metamorfoses
Não dei por hoje ser feriado, pois todos os dias passaram a ser feriado. A realidade suspendeu a força coerciva sobre mim, até que outra realidade suspenda definitivamente tudo. Uma viagem rápida à capital de distrito e um almoço numa terra que se intitulou capital do cavalo. Não vi nenhum, pelo menos reconhecível como tal. Sabe-se, porém, que há muitos cavalos disfarçados. Passam por nós e parecem-nos seres humanos, mas não são. Aliás, só um entranhado hábito nos leva crer que quando deparamos com um homem ou uma mulher é um ser humano que vemos. Esta crença, porém, está longe de ter provas fundadas. Quantas vezes, aqueles que passaram por nós como humanos, ao cortarem para outra rua se apresentam como cavalos, ursos, hienas, leões. Por certo ter-me-ei cruzado com alguns cavalos e não é improvável que tenha partilhado o restaurante com outros. Todos bem disfarçados. Não relinchavam e, quando se levantavam das mesas, não se punham a trotar. Andavam como seres humanos com o propósito de me enganarem. O mundo está cheio de metamorfoses, e, como fomos ensinados desde crianças, nem tudo o que parece é. Eu próprio…
terça-feira, 2 de junho de 2026
Homem do presente
Tinha pensado escrever sobre uma das mais famosas frases de Nietzsche: O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem. A ideia era comparar a superação do homem proposta pelo pensador alemão com a superação proposta pelas correntes transumanistas e pós-humanistas. A primeira alicerçada na ética e na vontade, a segunda na tecnologia. Depois, o barulho de um berbequim a perfurar o cimento no prédio, os gritos de adolescentes à espera da aula no Centro de Línguas e a preguiça que faz parte da minha natureza, tudo isso junto fez-me desistir de tão estouvado projecto Não quero saber de super-homens, dotados de uma supermoral nascida de uma supervontade, nem de homens hibridados com a tecnologia, que não serão já homens. Convivo bem com a minha humanidade limitada, frágil, mortal. Não quero ter uma superinteligência alicerçada num chip implantado no cérebro, basta-me a minha estupidez natural. Não quero um moral de super-homem, bastam-me as morais humanas. Não sou um homem do futuro, dirão. Claro que não. O futuro é aquele lugar em que estaremos todos mortos, mesmo os super-homens, mesmos os híbrido pós-humanos. Devia ir dormir uma sesta, actividade humana, demasiado humana. Talvez o faça.
segunda-feira, 1 de junho de 2026
Dentro da sonolência
A tarde amadureceu dentro da minha sonolência. Não havia nela um devaneio onírico pois nunca sonho. Consta que esta última afirmação é falsa. Todos sonham, quer dêem por isso, quer não. Eu serei dos que não dou por isso. O que é uma vantagem. Deixe-se de lado a teoria do sonho e aceite-se que nunca sonho. Todo o texto precisa, para ser verdadeiro, de afirmações falsas, pois a verdade textual não reside no facto de todas as afirmações corresponderem à realidade, mas num outro lugar, na coerência que essas afirmações têm com a totalidade do que está escrito. Ora, a tarde madura avança, liberta já da minha sonolência, o que faz desta uma mãe produtiva. Gera alguma coisa que dá à luz para se tornar autónoma e caminhar por aí fora. Gostaria de pensar em coisas mais importantes, mas não encontro nada que o mereça. Por isso, deixo-me dormir, mesmo quando escrevo o que estou a escrever.