terça-feira, 26 de maio de 2026

Descansar da preguiça

Até a preguiça cansa. Uma acédia inexplicável caiu sobre este narrador. As narrativas possíveis dissolveram-se e a peregrinação foi interrompida. Entretanto, o mundo mudou de forma dramática. Por exemplo, o narrador deixou de tomar café depois de almoço. Não, não foi por recomendação médica. Foi apenas porque foi, que é a melhor das razões possíveis. O barulho de uma máquina em manobras vem de lá de fora. O barulho da máquina desapareceu, substituído por um batuque de martelo na parede. Obras, pensei. Logo hoje, que decidi descansar da preguiça. A certa altura, num romance de Yórgos Seféris, uma personagem diz: Aqui, em tempos, as meninas liam Paparrigópoulos com lágrimas nos olhos. O que escreveria ele, pergunto-me, para as deixar nessa comoção? Nunca tinha ouvido este nome. Procuro. Poeta grego romântico, de um romantismo tardio. Talvez as lágrimas nascessem da melancolia exalada pelos poemas. Talvez não viessem de lado nenhum, apenas as meninas sentiam que era tempo de chorar e procuravam, naquela poesia, uma justificação que o mundo suportasse. Quem tem paciência para quem chora apenas porque quer chorar? Ninguém. Então, elas, tocadas pelas flechas do amor, escudavam-se no poeta. Porque choras? A poesia faz-me chorar. E a resposta agradava a quem a ouvia e tranquilizava a família. O mundo mudou – é este o problema do mundo: está sempre a mudar – e as meninas não choram ao ler poesia e também não a lêem. Não por acédia, mas porque agora são amazonas e têm o mundo a conquistar.