Perdi-me neste domingo. Acordei e já estava perdido. Daí para cá, a situação só piorou. Talvez a causa resida num facto prosaico: hoje é o último dia do mês de Maio. Para todo o sempre, jamais haverá um Maio de 2026. Estas coisas são irrevogáveis. Há nesta irrevogabilidade uma farsa metafísica. Uma coisa que ainda é, presta-se a deixar de ser, tornar-se um nada. Contudo, os actores não são os melhores, apenas os que havia e este mês de Maio era o único que havia para representar o Maio de 2026. Logo, à meia-noite, o público baterá palmas ao mês que se vai, mas ninguém pedirá bis. Nem sequer um encore. Isto introduz a injustiça com que as coisas, neste mundo, são tratadas. No fim de um concerto, o público, por delicadeza ou entusiasmo sincero, aplaude até que haja um prolongamento. A nenhum mês, apesar de ter concertado os dias da semana, se solicita nem mais um segundo. Eis uma face da injustiça neste mundo. Não se pense que os concertos não têm em si um sentimento de injustiçados. Por vezes, num jogo de futebol há um prolongamento, uma espécie de encore desportivo. Contudo, se o público for muito insistente, ainda tem direito ao desempate através de pontapés na marca da grande penalidade. Coisa que nunca ocorreu, tanto quanto sei, num concerto musical. E, por certo, também o futebol se sentirá injustiçado, quando se compara a alguma coisa – que neste momento não me ocorre – que tem sobre ele uma vantagem qualquer. Num mundo como este, polvilhado de grãos de injustiça, como poderia deixar de estar perdido? Não podia, por mais que suspirasse pela norma justa que me levaria ao encontro comigo mesmo.
domingo, 31 de maio de 2026
sábado, 30 de maio de 2026
Um resto de madrugada
Saí de manhã para caminhar. Ainda havia um resto de madrugada, por onde entrei e tentei conservar até ao fim. A madrugada é aquele momento do dia em que tudo é mais puro. Encerra todas as promessas do mundo, todas as possibilidades estão abertas. Contudo, como todas as coisas belas, ela é efémera, demasiado efémera. O que restava dela, quando saí de casa, esvaiu-se por entre os dedos, enquanto a tentava segurar, para participar, por instantes, naquela beleza que o correr das horas corromperá. Pensei: amanhã terei de sair ainda mais cedo. Como seria bom caminhar ao romper do sol. Nessa hora, seria completo e traria em mim todas as possibilidades que não tenho. Sorrio perante a ingenuidade do desejo. Outro desejo mais forte triunfará, o do corpo sentir o aconchego da cama. A vida, ocorre-me, é um conflito entre desejos e há aqueles que são mais fortes do que os outros, sobre os quais exercem o seu império. Suspendo o pensamento e apago os desejos. As paredes dos prédios, batidas pelo sol, reverberam. Sou um animal sem nome, um instante cintilante como uma aparição. Os pássaros calaram-se. Calei-me com eles.
sexta-feira, 29 de maio de 2026
O peregrino
Dei por mim a olhar para o relógio. São cinco da tarde, constatei. Como cheguei aqui, a esta hora, sem que desse por ter feito algum caminho no tempo. Ah, como és idiota. Rosnou o homúnculo que vive no subsolo da minha consciência. Não sabes que não há caminhos no tempo? Caminhos, só no espaço, mas é preciso que alguém os abra. Ninguém caminha no tempo, continuou, rindo-se do meu ar estupefacto. O tempo é que caminha por ti. Melhor, caminha por todas as coisas. Como uma cobra, ele desliza por dentro de tudo o que existe. As coisas que parecem envelhecer não envelhecem, desgastam-se. É o caminhar do tempo que as desgasta. É um caminhante terrível e poderoso, pois a sua passagem nada deixa incólume, acrescentei eu, de modo conciliador, desejoso de obter a concordância do homúnculo. Não, não é um mero caminhante, respondeu. É um peregrino que esqueceu a pátria de onde veio e não sabe a que santuário se dirige. É cego, surdo e mudo. Limita-se a um peregrinar sem fim, com a esperança de que, por acaso, encontre o lugar que espera.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Desengonçar
Cansa-me este Maio que se recusa a ser primaveril e se veste de Verão, armado com os raios do calor, protegido pelo escudo da impotência humana. Não há quem o ponha na ordem e ele inunda a cidade com um bafo escaldante. Como um animal temeroso, escondo-me em casa, esperando, para sair, a vinda benévola da noite. O tempo, tomado por clima, desengonçou-se quando o homem foi à Lua. Não, não fui eu que pensei tal coisa, mas fui eu que a ouvi há algumas décadas. A explicação ingénua não será totalmente errada. Se a ida à Lua for tomado como um símbolo do modo de vida que permitiu essa aventura, haverá alguma verdade. Talvez desengonçar seja um verbo branco. Todos os verbos brancos são invisíveis. / Giram em torno de actividades que não se aprendem. / Chamam-se desaparecer, apagar, morrer / E conduzem a lugares desabitados. / Imperceptíveis, deslizam pelo espaço. Isto escreveu o poeta Durs Grünbein, no seu livro de poemas Velas de Ignição. Na verdade, ele não escreveu isto, quem o escreveu foi a tradutora. Ele terá escrito algo equivalente, mas em alemão. No resto do poema, o autor dá outros exemplos, mas não desengonçar. Se ele tivesse ouvido aquilo que ouvi, não se teria esquecido do verbo que explica a doença destes dias absurdos. Também eu me desengoncei e não foi porque alguém tivesse ido à Lua. Parece ser a natureza das coisas, se é que as coisas têm uma natureza.
quarta-feira, 27 de maio de 2026
A cabeça nas nuvens
Como o mundo se transforma, pensei. Andar com a cabeça nas nuvens era comportamento repreensível, motivo de complacência, razão para escárnio e maldizer. Nenhuma destas penalizações sociais era feita de forma agressiva, o mais da vezes apenas um exercício de bonomia paternalista. Ora, o que se anuncia para futuro da humanidade é andar mesmo com a cabeça nas nuvens. Um dos profetas desse futuro é Ray Kurzweil. Está convencido de que seremos seres modificados pela engenharia genética, que nos expandirá o cérebro. Talvez expanda outras coisas, mas não sabemos. Esse cérebro hipertrofiado será tornado mais poderoso pela Inteligência Artificial e ligado directamente à nuvem. Nesse momento, toda a gente, ou quase, andará de cabeça nas nuvens. Repreensível é não a ter lá. Nem sei o que dizer. Kurzweil não é o Oráculo de Delfos, mas usa, como instrumento de predição, a análise do desenvolvimento das próteses digitais. Tem sido bem sucedido, o que fortalece a probabilidade do facto de andarmos ligados (os que cá estiverem, claro) à nuvem se tornar realidade. Fico deprimido. Considerando a idade do meu cérebro, por mais tentativas de conexão que ele tentasse, a nuvem recusar-se-ia a estabelecer ligação. Prefere, suponho, cérebros viçosos, frescos como alfaces acabadas de colher, talvez virginais. Resta-me, se de hoje para amanhã as grandes tecnológicos começarem a disponibilizar ligações directas entre o que está dentro da caixa craniana e as respectivas nuvens, resta-me, dizia, andar aluado, outra designação para os que tinham a cabeça nas nuvens, segundo a antiga ordem do mundo. O que para uma pessoa da minha idade é digno de escárnio e maldizer. Olha aquele anda com a cabeça na lua, perdeu a ligação à nuvem. Encolho os ombros, enquanto oiço o Bolero de Ravel e tento, sem conseguir, lembrar-me do enredo de Les uns et les autres, onde a peça do compositor francês tem um lugar central. A falta que me faz a ligação à nuvem.
terça-feira, 26 de maio de 2026
Descansar da preguiça
Até a preguiça cansa. Uma acédia inexplicável caiu sobre este narrador. As narrativas possíveis dissolveram-se e a peregrinação foi interrompida. Entretanto, o mundo mudou de forma dramática. Por exemplo, o narrador deixou de tomar café depois de almoço. Não, não foi por recomendação médica. Foi apenas porque foi, que é a melhor das razões possíveis. O barulho de uma máquina em manobras vem de lá de fora. O barulho da máquina desapareceu, substituído por um batuque de martelo na parede. Obras, pensei. Logo hoje, que decidi descansar da preguiça. A certa altura, num romance de Yórgos Seféris, uma personagem diz: Aqui, em tempos, as meninas liam Paparrigópoulos com lágrimas nos olhos. O que escreveria ele, pergunto-me, para as deixar nessa comoção? Nunca tinha ouvido este nome. Procuro. Poeta grego romântico, de um romantismo tardio. Talvez as lágrimas nascessem da melancolia exalada pelos poemas. Talvez não viessem de lado nenhum, apenas as meninas sentiam que era tempo de chorar e procuravam, naquela poesia, uma justificação que o mundo suportasse. Quem tem paciência para quem chora apenas porque quer chorar? Ninguém. Então, elas, tocadas pelas flechas do amor, escudavam-se no poeta. Porque choras? A poesia faz-me chorar. E a resposta agradava a quem a ouvia e tranquilizava a família. O mundo mudou – é este o problema do mundo: está sempre a mudar – e as meninas não choram ao ler poesia e também não a lêem. Não por acédia, mas porque agora são amazonas e têm o mundo a conquistar.