quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Controlo do som

Um bando de crianças treina a voz no parque infantil aqui em baixo. Não as vejo, mas oiço-as. Adoradas crianças e ainda mais adorados pais, amantes da estridência e das agudas vocalizações dos seus geniais rebentos. O episódio recordou-me um outro, ocorrido há muito, talvez num funeral. A uma senhora, antiga professora primária, daquelas que só havia antigamente, já bem entrada na idade, perguntaram-lhe, já não sei a propósito de quê, se não gostava de crianças. Muito, mas só na televisão. Perante a perplexidade dos presentes, esclareceu: mal as oiço, é só desligar o botão. Não serei tão radical, mas também ainda não tenho a idade que a senhora tinha na altura; não seria mau que todas as crianças viessem com um dispositivo, manejável à distância, para controlar o som. O mundo sonoro melhoraria e, imagino, os adultos teriam um vislumbre da verdadeira felicidade. A criancinha decide fazer uma birra, com a intenção de partilhar com o mundo, através do som, a sua infelicidade; a solução mais digna seria pura e simplesmente baixar o som até ele desaparecer. O pequeno insurgente se rebolar-se-ia na ira, até se cansar e descobrir que o caminho da razão é feito de não poucas frustrações. As crianças abandonaram o parque ou então alguém lhes desligou o som. O mundo nem sempre é mau.

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