Novembro começa pouco anovembrado. Olho para a rua e penso que podíamos estar em Setembro, num domingo de Setembro. Claro que não podíamos, pois o dia em que se está impõe-se como uma necessidade, não como o resultado arbitrário de uma escolha entre possíveis. Este começo parece-me demasiado hermético. Que se ponha de lado o possível e o necessário. Não se faça deste texto um exercício de lógica modal alética. Deixemo-nos levar por aquilo que vem ao nosso encontro. O pensamento é uma larga e comprida avenida. Por ela muitas coisas vêm ter connosco. Um pensamento sobre o estado do tempo, logo esquecido e substituído por outro sobre o mundo em que estamos. E, este ainda não se acabou de formular, chega outro, o de uma conversa com a neta mais velha, mas que soçobra pela vinda de um sobre a disposição que devia ter, mas não tenho, para ir à rua. Já me assalta a memória dos livros que comprei esta manhã, ou de uma pessoa que encontrei e com quem troquei breves palavras. O pensamento, penso-o agora, é um palco de infidelidade constante. Não é o lugar da razão, mas o da dispersão, e, desse ponto de vista, é uma imagem do nosso destino, quando todos os átomos que nos constituem se dispersarem por aí. Não pensemos, porém, na morte. Será ainda mais repugnante do que a lógica. Também é possível que a lógica seja uma espécie de morte antecipada, embora o meu pensamento já esteja tomado pelo amarelecer das folhas das acácias da praceta aqui em baixo. Oiço vozes na rua, mas, felizmente, não percebo o que dizem. Ganharíamos todos muito se não se percebesse parte substancial das coisas que são ditas. Ontem bateram à porta e empunharam a espada do Halloween com a divisa doçura ou travessura, mas hoje ninguém se lembrou de vir pelo pão por Deus. Não é esta a expressão que se usa por cá, mas omito-a para fingir que possuo um segredo. Espero pelo dia em que Novembro se torne Novembro.