segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Guardas-nocturnos

As horas deslizam tão depressa que nem se dá por elas. Ainda há pouco era manhã e, agora, a noite cerrou-se sobre a cidade, fechou as portas por onde os raios solares entravam e entregou o território aos guardas-nocturnos. Não se trata, porém, de guardas-nocturnos de carne e osso, mas de anjos que, sem ocupação momentânea, vigiam, do cimo dos prédios, o que se passa pelas ruas. Não se pense que eles, apesar de o poderem fazer com a sua terrível visão, perscrutam o que acontece dentro de casa, as desavenças, os dramas, as horas de felicidade. Tão pouco as cenas de amor, onde os corpos se entregam numa ânsia de se devorarem, se ânsia ainda existe, os atraem e os torna voyeurs, apesar da mal disfarçada curiosidade que sentem por aquilo que tanto atormenta o espírito dos humanos. Limitam-se a vigiar as ruas, a certificarem-se de que a noite está ali bem aconchegada, a ver deslizar, também eles, as horas, para que venha a aurora e uma outra missão lhes seja entregue. Pois os anjos não dormem.

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