domingo, 4 de janeiro de 2026

Um dia

Hoje, o novo ano arrependeu-se daquela sua face cinzenta, fria, quase iracunda. Quando despertei, descobri-o jovial e convidativo. Fui caminhar neste primeiro domingo e as poucas pessoas com que me cruzei pareciam, também elas, estarem num domingo. Um acontecimento raro, este acordo de cataduras. A norma é que, por exemplo, num domingo, existam pessoas com feições de sábado, ou de quarta-feira, ou de sexta-feira, ou de qualquer dia da semana excepto aquele que o calendário indica. Um traço cultural persistente, não respeitar as indicações do calendário. É um facto que, durante a semana, as pessoas respeitam essa indicação. Contudo, estamos perante aparências. O que as move é o medo do que lhes pode acontecer se, estando em plena terça-feira, aparentem estar, no sítio onde exercem funções para enfrentar as necessidades da vida, num sábado ou num domingo. A humanidade rodeou-se de calendários, mas detesta-os. É um traço arcaico, geneticamente proveniente do tempo em que os seres humanos ainda não se tinham enrodilhado nas redes desses calendários. Para eles, nossos antepassados, não havia dias da semana, pois cada dia limitava-se a ser aquilo que era: um dia.

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