Como o mundo, o domingo está triste e cinzento. Não é que falte colorido ao mundo. Pelo contrário, existe nele uma paleta de cores exuberante, mas, quando todas essas cores que por aí pululam chegam ao cérebro, por uma obscura alquimia, transformam-se num cinzento pastoso e ameaçador, o prelúdio das trevas. Quanto ao domingo, este é muito menos dramático. É cinzento porque lhe falta luz, e uma chuva fina, sem intermitências, cria uma barreira sólida ao papel dos raios solares. Para que a preocupação não desça sobre mim, escolho o cinzento do domingo ao cinzento do mundo. Assim, posso fazer melhor a digestão do almoço, enquanto o mundo caminha preso a uma lógica que parece estar a tornar-se imparável. Uma lógica que não anuncia o melhor dos mundos possíveis. Pelo contrário. Tenho de sair e enfrentar o clima, embora o sacrifício não seja grande ou sequer exista. É verdade que não me apetece levantar do sítio onde escrevo, mas há coisas piores na vida. O mais extraordinário, porém, é que, por piores que sejam as coisas, sempre haverá outras piores, num declive escorregadio infinito. Dir-me-ão que, também perante as coisas boas, sempre se descobrirão outras melhores, numa escala infinita. A grande diferença é que, para atingir as piores, é só uma questão de descer, enquanto, para alcançar as melhores, há que subir. E subir é infinitamente mais difícil do que descer. Ite, missa est.
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