Passado mais de um ano da morte da mãe, estive a desfazer a casa dos pais. A frase surpreendeu-me. A surpresa conduziu-me a uma pergunta: Que tipo de narrador sou? Um narrador tem uma existência meramente literária, respondo-me. Não existe qualquer narrador de carne e osso. São todos seres imaginados, criações de imaginações delirantes. Sendo assim, a frase inicial é falsa. A surpresa, porém, está na forma do enunciado, a ausência de pronomes possessivos para mãe e pais. Um habitus linguístico que é, ao mesmo tempo, um habitus social. Como se o narrador pertencesse a uma certa classe social que simula o afastamento dos pais para parecer que está a fazer um relato objectivo, ocultando a dimensão afectiva presente no uso dos possessivos. Contudo, esta objectividade é um dispositivo retórico que visa a hiperbolização do pai ou mãe referidos. Essa mãe ou esse pai deixam de ser mãe ou pai particulares, limitados e finitos, mas, através da enunciação, passam a ser mãe e pai universais, dotados de um poder de fecundidade que os tornam pais de toda a humanidade, uma encarnação de Adão e Eva, mas infinitamente mais potente. Enquanto os membros das classes populares possuem pais próprios, os das elites sociais – fundamentalmente, as letradas e tradicionais – têm de partilhar a filiação com toda a humanidade, sem que isso, porém, tenha impacto na herança. Tem-se o melhor dos dois mundo: uma parentalidade universal e uma herança particular. Caso me perguntem – o que não acontecerá – o que me levou a escrever isto, a única resposta séria é dizer que já não me lembro. O esquecimento não é um alibi que permite escapar a perguntas indelicadas, mas uma deficiência ontológica, trazida pelo tempo, da memória. Isto no caso de a memória possuir ser. Um dia, espero ter paciência – infinita, sublinhe-se – para suportar, enquanto narrador, as idiotices que o autor me obriga a assumir como minhas.
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