Há pouco, ouvi lamentar a gestão meteorológica que está a ser feita. O lamentador vive naquele concelho onde há uma festa do S. Martinho e uma feira do cavalo. O argumento pareceu-me razoável. Agora, há sol e tempo propício aos festejos, mas quando chegar a data do Verão de S. Martinho, teremos um Inverno chuvoso. Como, com a idade, me tornei desconfiado, fui consultar o site do IPMA. A lamentação tem fundamento. Embora eu não seja adepto dessas festividades, compreendo a dor devida à má-gestão do clima. Depois, aborrece-me o desrespeito pela tradição. Esta diz-nos o Verão de S. Martinho. Não nos diz O Inverno de S. Martinho. Quando são os próprios poderes de cima que não respeitam as tradições, pouca esperança podemos ter na sua manutenção. Nos dias em que acordo com a minha disposição apolínea, sou sensível a estas quebras de regularidade. Quase as sinto como uma ofensa pessoal, mesmo que não me tenha passado pela cabeça pôr os pés naqueles festejos. Nos dias em que acordo com uma inclinação dionisíaca, sou o primeiro a congratular o CEO da empresa que gere o clima pela confusão que está a gerar. O problema é que, com o passar dos anos, cada vez são mais os dias apolíneos do que os dionisíacos. Qualquer dia, estes serão apenas uma sombra, uma leve reminiscência, até que me desapareçam da memória. Talvez nem me façam falta.
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