sábado, 7 de fevereiro de 2026

Ter ou não ter gato

Franz Kafka começa assim o segundo caderno, de oito, em oitavo: Um pequeno rapaz tinha como única herança do seu pai um gato e, graças a ele, tornou-se presidente da câmara de Londres. O que fica por esclarecer é se a chegada do pequeno rapaz à presidência de uma grande cidade foi um feito ou um azar dos diabos. Os homens, é certo, gostam de se alcandorar a lugares de poder; sentem-se reconhecidos pelos seus concidadãos ou por quem é poderoso. E aqueles que não têm gato e, por isso, não chegam ao cume político de uma grande — ou mesmo pequena — cidade não cessam a verrina contra os que se elevaram, verrina essa que não é mais do que pura inveja. Ardem de desejo por um gato que os eleve, mas não há animal que os queira. É a vaidade que não permite ver que esses cargos são uma das piores coisas que podem acontecer a um homem ou a uma mulher. Recordemos coisas básicas: por certo, quando a espécie imergiu neste mundo, todos os seus membros eram anónimos. Terá demorado tempo a que se começassem a atribuir nomes individualizantes. O anonimato é, desse modo, a nossa condição mais fundamental. Ser presidente da câmara de uma cidade é um afastamento desse anonimato original. Não apenas se tem um nome, coisa já de si problemática, como esse nome se torna motivo de conversas de conhecidos e de desconhecidos, conversas o mais das vezes com intenção maligna. Imagino que aquele rapaz, depois de ter chegado à presidência da Câmara de Londres, tenha lamentado vivamente a herança recebida do pai.

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