quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Um sopro angélico

Foi o senhor Pierre-Simon Laplace que, em 1814, imaginou uma inteligência – o demónio de Laplace – que teria o poder de conhecer a posição e a velocidade de todas as partículas do universo. Dotada deste conhecimento e das leis da Física, essa inteligência conseguiria predizer o que se passaria em qualquer momento do futuro, bem como de reconstituir todo o passado. Em 1814, ela saberia já que em Novembro de 2026, a uma quarta-feira, dia 4 de Novembro, eu estaria aqui a escrever sobre ela. Laplace nunca chamou demónio a essa inteligência. Consta que foram os comentadores. Utilizaram a palavra não como a usamos, mas no sentido grego de daimon, um espírito com capacidades sobre-humanas. Contudo, discordo em absoluto da benevolência desses comentadores. A inteligência laplaciana mais do que um daimon seria um demónio, talvez o pior de todos. Não lhe bastava ter o poder de saber tudo do passado, o que poria fim ao trabalho dos historiadores, como teria a capacidade de predizer o que cada um de nós faria a cada instante. Ora, isso não seria apenas uma invasão da nossa intimidade, mas a aniquilação do livre-arbítrio humano. Eu não teria escolhido estar a escrever isto neste momento, mas estava determinado a fazê-lo desde o início do mundo, caso o mundo tenha tido um começo. Só um ser demoníaco poderia conceber tal coisa. Esta possibilidade é a forma mais radical de igualitarismo que jamais foi pensada. Os grandes igualitaristas ao pé do demónio de Laplace são umas crianças. Não haveria qualquer diferença entre eu estar a escrever isto e a Lua orbitar a Terra, ou um cão morder o ciclista que passava descansado para ir ver a namorada. Tudo estava determinado por leis férreas e inalteráveis. Um inferno. O que nos valeu foi, por certo, um anjo pertencente aos exércitos celestes. Para combater o demónio, soprou ao ouvido de alguns cientistas os princípios da Mecânica Quântica, onde a malévola rigidez newtoniana foi substituída pela caridade da dúvida e a graça da probabilidade. Consta que até hoje ninguém compreendeu a Mecânica Quântica, o que é um bom argumento para a tese do sopro angélico. O anjo terá dito: não se preocupem em entender, deixem-se de palavreado. Calculem e apliquem, façam coisas com ela. Isso será suficiente para manter o demónio de Laplace bem ao longe. Tem resultado.

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