Não há como estar em Lisboa. No espaço de três dias, fui duas vezes ao cinema. Vi Hamnet, de Chloé Zhao, e Valor Sentimental, de Joachim Trier, de que gostei particularmente. Sempre achei estranha a sensação de entrar para um filme em pleno dia e, ao sair, ser já noite. Levo tempo a habituar-me à ideia. Isto revela uma ilusão presente no cinema. A da suspensão do tempo. Entro para a sala e, lá bem dentro de mim, há a expectativa de que o mundo permaneça o mesmo quando sair, que o tempo se suspenda. Quando me deparo, porém, com a realidade, que o dia se tornou noite, nasce uma inquietante estranheza, como se o mundo me fosse familiar, mas nessa familiaridade residisse uma ameaça. Passados uns minutos tudo se dissolve, o filme é integrado na temporalidade e a ameaça que me envolveu dissolve-se no horizonte. A vida corrente tomou conta da imaginada, que parecia possível, mas afinal era apenas um “como se”, uma promessa irrealizável.
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