quarta-feira, 27 de maio de 2026

A cabeça nas nuvens

Como o mundo se transforma, pensei. Andar com a cabeça nas nuvens era comportamento repreensível, motivo de complacência, razão para escárnio e maldizer. Nenhuma destas penalizações sociais era feita de forma agressiva, o mais da vezes apenas um exercício de bonomia paternalista. Ora, o que se anuncia para futuro da humanidade é andar mesmo com a cabeça nas nuvens. Um dos profetas desse futuro é Ray Kurzweil. Está convencido de que seremos seres modificados pela engenharia genética, que nos expandirá o cérebro. Talvez expanda outras coisas, mas não sabemos. Esse cérebro hipertrofiado será tornado mais poderoso pela Inteligência Artificial e ligado directamente à nuvem. Nesse momento, toda a gente, ou quase, andará de cabeça nas nuvens. Repreensível é não a ter lá. Nem sei o que dizer. Kurzweil não é o Oráculo de Delfos, mas usa, como instrumento de predição, a análise do desenvolvimento das próteses digitais. Tem sido bem sucedido, o que fortalece a probabilidade do facto de andarmos ligados (os que cá estiverem, claro) à nuvem se tornar realidade. Fico deprimido. Considerando a idade do meu cérebro, por mais tentativas de conexão que ele tentasse, a nuvem recusar-se-ia a estabelecer ligação. Prefere, suponho, cérebros viçosos, frescos como alfaces acabadas de colher, talvez virginais. Resta-me, se de hoje para amanhã as grandes tecnológicos começarem a disponibilizar ligações directas entre o que está dentro da caixa craniana e as respectivas nuvens, resta-me, dizia, andar aluado, outra designação para os que tinham a cabeça nas nuvens, segundo a antiga ordem do mundo. O que para uma pessoa da minha idade é digno de escárnio e maldizer. Olha aquele anda com a cabeça na lua, perdeu a ligação à nuvem. Encolho os ombros, enquanto oiço o Bolero de Ravel e tento, sem conseguir, lembrar-me do enredo de Les uns et les autres, onde a peça do compositor francês tem um lugar central. A falta que me faz a ligação à nuvem.

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