sábado, 30 de maio de 2026

Um resto de madrugada

Saí de manhã para caminhar. Ainda havia um resto de madrugada, por onde entrei e tentei conservar até ao fim. A madrugada é aquele momento do dia em que tudo é mais puro. Encerra todas as promessas do mundo, todas as possibilidades estão abertas. Contudo, como todas as coisas belas, ela é efémera, demasiado efémera. O que restava dela, quando saí de casa, esvaiu-se por entre os dedos, enquanto a tentava segurar, para participar, por instantes, naquela beleza que o correr das horas corromperá. Pensei: amanhã terei de sair ainda mais cedo. Como seria bom caminhar ao romper do sol. Nessa hora, seria completo e traria em mim todas as possibilidades que não tenho. Sorrio perante a ingenuidade do desejo. Outro desejo mais forte triunfará, o do corpo sentir o aconchego da cama. A vida, ocorre-me, é um conflito entre desejos e há aqueles que são mais fortes do que os outros, sobre os quais exercem o seu império. Suspendo o pensamento e apago os desejos. As paredes dos prédios, batidas pelo sol, reverberam. Sou um animal sem nome, um instante cintilante como uma aparição. Os pássaros calaram-se. Calei-me com eles.

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