domingo, 31 de maio de 2026

Injustiças

Perdi-me neste domingo. Acordei e já estava perdido. Daí para cá, a situação só piorou. Talvez a causa resida num facto prosaico: hoje é o último dia do mês de Maio. Para todo o sempre, jamais haverá um Maio de 2026. Estas coisas são irrevogáveis. Há nesta irrevogabilidade uma farsa metafísica. Uma coisa que ainda é, presta-se a deixar de ser, tornar-se um nada. Contudo, os actores não são os melhores, apenas os que havia e este mês de Maio era o único que havia para representar o Maio de 2026. Logo, à meia-noite, o público baterá palmas ao mês que se vai, mas ninguém pedirá bis. Nem sequer um encore. Isto introduz a injustiça com que as coisas, neste mundo, são tratadas. No fim de um concerto, o público, por delicadeza ou entusiasmo sincero, aplaude até que haja um prolongamento. A nenhum mês, apesar de ter concertado os dias da semana, se solicita nem mais um segundo. Eis uma face da injustiça neste mundo. Não se pense que os concertos não têm em si um sentimento de injustiçados. Por vezes, num jogo de futebol há um prolongamento, uma espécie de encore desportivo. Contudo, se o público for muito insistente, ainda tem direito ao desempate através de pontapés na marca da grande penalidade. Coisa que nunca ocorreu, tanto quanto sei, num concerto musical. E, por certo, também o futebol se sentirá injustiçado, quando se compara a alguma coisa – que neste momento não me ocorre – que tem sobre ele uma vantagem qualquer. Num mundo como este, polvilhado de grãos de injustiça, como poderia deixar de estar perdido? Não podia, por mais que suspirasse pela norma justa que me levaria ao encontro comigo mesmo.

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