sexta-feira, 29 de maio de 2026

O peregrino

Dei por mim a olhar para o relógio. São cinco da tarde, constatei. Como cheguei aqui, a esta hora, sem que desse por ter feito algum caminho no tempo. Ah, como és idiota. Rosnou o homúnculo que vive no subsolo da minha consciência. Não sabes que não há caminhos no tempo? Caminhos, só no espaço, mas é preciso que alguém os abra. Ninguém caminha no tempo, continuou, rindo-se do meu ar estupefacto. O tempo é que caminha por ti. Melhor, caminha por todas as coisas. Como uma cobra, ele desliza por dentro de tudo o que existe. As coisas que parecem envelhecer não envelhecem, desgastam-se. É o caminhar do  tempo que as desgasta. É um caminhante terrível e poderoso, pois a sua passagem nada deixa incólume, acrescentei eu, de modo conciliador, desejoso de obter a concordância do homúnculo. Não, não é um mero caminhante, respondeu. É um peregrino que esqueceu a pátria de onde veio e não sabe a que santuário se dirige. É cego, surdo e mudo. Limita-se a um peregrinar sem fim, com a esperança de que, por acaso, encontre o lugar que espera.

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