Cansa-me este Maio que se recusa a ser primaveril e se veste de Verão, armado com os raios do calor, protegido pelo escudo da impotência humana. Não há quem o ponha na ordem e ele inunda a cidade com um bafo escaldante. Como um animal temeroso, escondo-me em casa, esperando, para sair, a vinda benévola da noite. O tempo, tomado por clima, desengonçou-se quando o homem foi à Lua. Não, não fui eu que pensei tal coisa, mas fui eu que a ouvi há algumas décadas. A explicação ingénua não será totalmente errada. Se a ida à Lua for tomado como um símbolo do modo de vida que permitiu essa aventura, haverá alguma verdade. Talvez desengonçar seja um verbo branco. Todos os verbos brancos são invisíveis. / Giram em torno de actividades que não se aprendem. / Chamam-se desaparecer, apagar, morrer / E conduzem a lugares desabitados. / Imperceptíveis, deslizam pelo espaço. Isto escreveu o poeta Durs Grünbein, no seu livro de poemas Velas de Ignição. Na verdade, ele não escreveu isto, quem o escreveu foi a tradutora. Ele terá escrito algo equivalente, mas em alemão. No resto do poema, o autor dá outros exemplos, mas não desengonçar. Se ele tivesse ouvido aquilo que ouvi, não se teria esquecido do verbo que explica a doença destes dias absurdos. Também eu me desengoncei e não foi porque alguém tivesse ido à Lua. Parece ser a natureza das coisas, se é que as coisas têm uma natureza.
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