domingo, 5 de julho de 2026

Calar-se

Há dias falei por aqui no romance policial A Promessa, de Friedrich Dürrenmatt. Como informei na altura a obra tem por subtítulo Requiem pelo romance policial. Pretenderia ser assim um anti-romance policial. Há um argumento implícito que atravessa a obra. O romance policial tem um defeito estrutural: ele coordena a narrativa de um modo lógico. A narrativa não será outra coisa do que o encadeamento das descobertas até se chegar à conclusão, à descoberta do autor do crime. Ora, o narrador, o doutor H., um polícia reformado pretende demonstrar a um autor de romances policiais – eventualmente, ao próprio Friedrich Dürrenmatt – que a vida não é assim, que nela pode intervir aquilo que os antigos chamavam fortuna, a qual não obedece a qualquer esquema lógico. O romance é, então, a demonstração destas premissas. No entanto, o autor parece não ter consciência da impossibilidade da sua tese. Aquele romance, ou qualquer outro, devido à estrutura tanto da linguagem como da narrativa, é sempre a imposição de uma racionalidade sobre uma matéria-prima verbal. A fortuna, mobilizada para provar a tese do doutor H., inscreve-se naquela narrativa com uma precisão lógica e racional. Na palavra logos, os gregos pensavam tanto o discurso como a razão. Isso não acontecia por acaso, mas porque as duas coisas, linguagem e razão, estão intrinsecamente ligadas e toda a linguagem, mesmo a mítica e a poética, é um ordenamento racional do mundo. O que escapa à razão, escapa também à linguagem e vice-versa. Por coisas como estas terá Ludwig Wittgenstein encerrado o Tratactus Logico-Philosophicus do modo mais sensato que se possa imaginar: Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar. Por mim, calo-me.

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