Mais logo, a partir da meia-noite vou ser um patriota da bola. Espero aguentar a pé firme até ao começo do jogo de Portugal com a Croácia. E, animado pela fé, hei-de ver o desafio sem adormecer, mesmo que Portugal aposte naquele tipo de futebol soporífero com que adormeceu o Congo, a Colômbia e a si mesmo. Não sou um patriota da bola completo pois não tenho uma camisola da selecção, nem uma bandeira de Portugal, daquelas com pagodes chineses no lugar de castelos, nem um simples cachecol com as cores nacionais. O que mais se aproxima é uma toalha de banho encarnada, mas falta-lhe o verde. Por isso, não a posso usar com símbolo de patriotismo futeboleiro. Estive hoje todo o dia em Lisboa, na baixa e em Campo de Ourique. Enquanto me tentava refugiar do avassalador ataque de calor, com os termómetros das farmácias a marcarem 39 graus, cogitava que Portugal não se iria safar desta. Não me refiro à vaga de calor, mas á eliminação pelos croatas. Não vi qualquer sinal de interesse pelo jogo, por Portugal, pela bola, por bandeiras e cachecóis. Mau presságio, pensei de mim para mim. Depois, relativizei a suspeita. Com aquela temperatura, nem os maiores patriotas da bola se afoitam a expressar qualquer sentimento, quanto mais o tórrido sentimento de amor pátrio pela selecção. Talvez, e esta é uma hipótese falsificável (logo, terá valor científico), o patriotismo futebolístico seja inversamente proporcional à temperatura. Quanto mais desce esta, mais sobe o ardor no apoio aos nossos. O pior é que isto também é válido para os patriotas do outro lado. Ardores contra ardores dão-me a esperança de não ressonar antes da primeira pausa para hidratação.
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