Estou um adepto consumado do futebol. Ontem fiquei a ver o jogo de Cabo Verde com a Argentina até ao dia de hoje. Os cabo-verdianos foram extraordinários e, como as árvores, morreram de pé. Isto é uma reminiscência de uma peça de teatro que a televisão, no tempo em que só havia um canal, que começava a trabalhar por volta das sete da tarde, transmitiu, uma e outra vez, com a actriz Palmira Bastos. Voltando à minha condição de adepto. Tenho uma idiossincrasia quando vejo o futebol. Retiro o som e oiço outra coisa. Pode ser música ou um vídeo do Youtube sobre um assunto que me interesse. Há coisas insuportáveis. As piores são os Rónaldos e os Féliks. Ronaldo, que começa por ser Cristiano, lê-se, em português de Portugal, Ru-nál-du. Quanto ao João Félix, eu que tive um tio-avô Félix, em português de Portugal, é Félis, como lápis. Um antigo ministro chama-se Bagão Félix e ninguém lhe chama Bagão Féliks. Parece que a desculpa dos comentadores da bola é que o jogador diz que os pais sempre lhe ensinaram que o seu nome se pronunciava Féliks. Fiquei surpreendido com a explicação, mas depois achei que era uma emanação das liberdades individuais. Cada família ensina os filhos a pronunciar as palavras como desejar e isso torna-se a norma, quase posso dizer, tendo em conta a importância dos comentadores de futebol, a norma culta da língua. E teremos tantas normas cultas quanto a capacidade inventiva das famílias. Féliks, Félis, Feliz, e assim por diante. Também haverá Rónaldo, Ronaldo (Ru-nál-du), Rónaldó e tudo o que os pais quiserem. Seja como for, tenho pouca paciência para os linguistas da bola e para a criatividade das famílias. Chopin e Liszt parecem-me bons para acompanhar o saltitar da bola, mas também uma entrevista a Emmanuel Todd, uma discussão sobre a Fraternidade Sacerdotal S. Pio X e o cisma na Igreja ou uma conferência sobre Hegel. O importante é que a bola role e que Portugal, no próximo jogo, mesmo cheio de Rónaldos e Féliks, utilize a táctica do quadrado, a padeira e a ala dos namorados, enviando os castelhanos para Castela. Seja como for, com os castelhanos enviados para Castela ou os portugueses para a Lusitânia, tornei-me um adepto de Cabo Verde.
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