Navego entre dois livros, O Reino, de Emmanuel Carrère, e A Promessa, de Friedrich Dürrenmatt. De um lado, o assunto é Paulo de Tarso, conhecido, nos dias de hoje, como S. Paulo. O escritor francês não escreve uma biografia de um dos pais fundadores daquilo que veio a ser conhecido como Cristianismo. Imagina esse Paulo a partir do texto de Lucas, caso seja dele, Actos dos Apóstolos e das cartas do próprio Paulo. Já a obra do escritor suíço é um romance policial, mas possui como subtítulo Requiem pelo romance policial. Em ambos os casos, estamos no domínio do religioso. Paulo e uma missa dos mortos. Escrevi acima que navego entre dois livros. Isto significa que ambas as obras são margens pelas quais deslizo no rio do tempo. Esta imagem heraclitiana está explorada até ao tutano, mas, como reconheço muitas vezes, sou falho de imaginação. Por exemplo, nunca teria imaginação para imaginar S. Paulo. Mas se tivesse alguma e fosse obrigado a escolher uma personagem do Novo Testamento, escolheria S. João. Ter escrito o Evangelho com o seu nome e o Apocalipse é obra. Ou talvez não. A tradição cristã diz que foi a mesma pessoa que escreveu ambos os livros. O consenso académico diz que foram escritos por pessoas diferentes. É este o problema da academia. Encontra razões – muitas vezes, sólidas – para minar a tradição. Platão, na República, a certa altura fala da nobre mentira. Este contaria uma história mítica com a finalidade política de manter a unidade da comunidade, uma unidade fundada na aceitação do seu lugar na sociedade. Hoje, chamar-se-ia a esta nobre mentira ideologia. Voltando a João e à tradição cristã. Muitas narrativas cristãs são nobres mentiras, servem para manter a comunidade coesa e para que a verdade, aquela que é fundamental, possa ser transmitida. A tradição não é uma historiografia, mas uma estratégia de transmitir algo considerado essencial através de produtos da imaginação. Dito de outra maneira, a tradição é uma poética.
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