quinta-feira, 5 de novembro de 2026

O inferno

Tenho estado a ler um livro sobre um certo movimento político que alia ficção científica, utopias cibernéticas e posições políticas. Como o autor me impede, enquanto narrador, de falar de política, resta-me falar daquilo que tem interesse na obra. A revelação de que há por aí uma quantidade não pequena de loucos que se julgam génios. Ora, o problema é que há quem acredite neles e esteja disposto a mergulhar o mundo numa distopia tão negra e absurda que as distopias literárias do século XX parecerão uma compassiva ingenuidade. Entre parte desses génios amalucados, Friedrich Nietzsche, com a sua pouco compreendida ideia de super-homem, é uma espécie de santo padroeiro. Se não tivessem o ego tão preenchido, esses génios atormentados podiam olhar para o destino não do pensamento de Nietzsche, mas da própria pessoa. A sua loucura é um caso que merece meditação. As pessoas procuram causas fisiológicas para o destino que lhe coube. Devemo-nos perguntar se essa loucura não é o corolário lógico do próprio pensamento. Há uma alternativa. Esse pensamento ser apenas a primeira fase, ainda oculta, de um estado de demência. Sim, eu sei que incorro no pecado do psicologismo, ao interpretar de tal forma o pensamento de Nietzsche. Não sou um santo nem pretendo subir aos altares da hermenêutica. Dito isto, Nietzsche tinha uma virtude sobre estes nietzschianos. Não pretendia impor as suas ideias através do martelo da política. Talvez, ao chegar ao outro mundo, terá sido perdoado por essa contenção, e, caso Dante voltasse a este planeta e reescrevesse a Divina Comédia, não o haveria de pôr nos círculos tenebrosos do Inferno. Benevolência que não teria por estes génios destrambelhados que sonham em fazer o inferno aqui mesmo.

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