quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Saudades do trema

Este ano de 2026 não começou nada bem. Quase um mês e meio de má disposição do clima. Para piorar as coisas, parece que para a semana será tempo de Carnaval, época que, neste país onde me acolho desde a hora da concepção, dá lugar a uns tristes espectáculos, nos quais se tenta mimar o Carnaval do Rio, com umas raparigas despidas que abanam as carnes — que se me perdoe a linguagem — para não morrerem de frio. O pior, porém, são os foliões espontâneos. Fazem da folia um espectáculo tão exuberante que há quem chegue a perguntar se aquilo é uma procissão ou um enterro. A Quarta-Feira de Cinzas é, em qualquer parte do mundo, mais animada do que os carnavais portugueses, desde que começaram a ser importados do Brasil. Ora, os governos brasileiros não travam a exportação, mas só vendem para o exterior aquilo que está deteriorado ou que passou o prazo de consumo há um século. Não queria falar do Carnaval, mas de um dito de Hölderlin — para dar uma imagem mais erudita. O dito diz o seguinte: cada um tem os seus mistérios, os seus pensamentos secretos. Isto é abusivo, uma generalização sem fundamento. Eu não tenho pensamentos secretos, logo não tenho mistérios. Sou transparente como uma parede de cristal. Contudo, a frase do poeta não é destituída de alguma verdade. Por exemplo, aquelas raparigas que se abanam à chuva e ao frio do Carnaval português têm um mistério: os secretos pensamentos que as levam a desfilar, a enfrentar a intempérie e os olhares que sobre elas repousam, como se fossem olhares libidinosos, mas de uma libido friorenta e sem segredo ou mistério. O melhor deste texto, porém, é o trema que pousa sobre o “o” de Hölderlin. Tenho saudades de, ao escrever, usar tremas, disse há dias. Fui repreendido e esclarecido de que não tenho idade para alguma vez na vida ter usado, ao escrever, tremas. Respondi que, sendo isso verdade, ainda mais saudades tenho dos tremas que nunca usei, a não ser em palavras estrangeiras. Tenho tantas saudades desses tremas quanto de dias de sol e sem chuva, com ou sem raparigas a abanarem-se no Carnaval nacional.

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