A tarde amadureceu dentro da minha sonolência. Não havia nela um devaneio onírico pois nunca sonho. Consta que esta última afirmação é falsa. Todos sonham, quer dêem por isso, quer não. Eu serei dos que não dou por isso. O que é uma vantagem. Deixe-se de lado a teoria do sonho e aceite-se que nunca sonho. Todo o texto precisa, para ser verdadeiro, de afirmações falsas, pois a verdade textual não reside no facto de todas as afirmações corresponderem à realidade, mas num outro lugar, na coerência que essas afirmações têm com a totalidade do que está escrito. Ora, a tarde madura avança, liberta já da minha sonolência, o que faz desta uma mãe produtiva. Gera alguma coisa que dá à luz para se tornar autónoma e caminhar por aí fora. Gostaria de pensar em coisas mais importantes, mas não encontro nada que o mereça. Por isso, deixo-me dormir, mesmo quando escrevo o que estou a escrever.
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