segunda-feira, 6 de julho de 2026

Anjos e grandes-penalidades

Continuo em maré de futebol. Faltar-me-á tema, por certo. Há aquele romance de Peter Handke, que Wim Wenders transformou em filme, com o curioso título de A Angústia do Guarda-Redes antes do Penalty. Quando vejo um penalty, tento descortinar essa angústia que tomaria conta do guarda-redes, mas, para dizer a verdade, não a vejo. Handke enganou-se, pois a angústia está toda do lado daquele que vai marcar o penalty. Ele olha para o guarda-redes e sente o peso de falhar aquilo que nunca se poderá falhar. Caso o jogador fosse letrado, amante de poesia, deveria questionar se aquele guarda-redes é um homem ou um anjo. Como os anjos, também os guarda-redes voam. Então perguntar-se-ia se os versos de Rilke, no início da segunda elegia de Duíno, descrevem aquele que deve derrotar com um pontapé bem colocado. Cada Anjo é terrível. E no entanto, ai de mim, / invoco-vos, ó aves quase mortíferas da alma, / sabendo quem sois. Aqueles guarda-redes que voam podem ser anjos e trazem neles o terrível, a ameaça de morte para a alma do chutador. Ele treme e sente a angústia. O seu pontapé sai propício para o anjo apanhar a bola e desferir nele, na sua alma de pecador, pois pecar é falhar o alvo, o terrível castigo do penalty falhado. Talvez nem todos os guarda-redes sejam anjos, mas alguns sê-lo-ão de certeza absoluta. Disfarçam-se de homens, mas voam, desferindo golpes mortais nos avançados que julgam, como Jacob, poder lutar com um anjo. Não podem.

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