Bebo água. É a única coisa que sei fazer com este tempo. Maldito clima, penso, e logo levo o copo à boca. Se não me fosse repetir, falaria da lentidão neuronal que me acomete, mas hoje não estou dado à iteração. Isto, apesar de ser uma pessoa repetitiva. Faço um esforço para não falar muito, o que me mostra uma faceta de cidadão perfeitamente preocupado com o bem dos outros. Poupo-lhes as minhas palavras e as minhas repetições. Entretenho-me a ler romances. Por exemplo, estou a ler o Doutor Jivago, de Boris Pasternak, que nunca tinha lido, e O Lobo das Estepes, de Hermann Hesse, que tinha lido há muito. Uma repetição. Confesso que estou a ficar preocupado. Não com a leitura do Doutor Jivago, mas com a de Hermann Hesse. Peguei no livro com o pensamento de que, passados uns parágrafos, o poria de lado. Era coisa de há muitas décadas e que hoje não teria paciência para aquela literatura. A verdade é que não o abandonei, estou a relê-lo com prazer. E é este prazer que me preocupa. Será que estou na segunda adolescência? Se for o caso, então estou a caminho da infância e de ler as aventuras do Pinóquio. O nariz não me cresceu. Volto à água.
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