domingo, 25 de outubro de 2026

Assunto

Alturas houve que escrevia todos os dias neste blogue. Agora, entrego-me a longas férias. Será uma desculpa prática para a dura realidade de ser um narrador sem assunto para narrar. Há duas maneiras de encontrar assunto. Uma é pesquisá-lo nas coisas que acontecem. Outra, procurar dentro da imaginação, onde, por milagre inexplicável, o assunto emerge como se fosse uma realidade que o mundo espera. E são estas duas fontes que me inibem. O que acontece passa sempre tão depressa que não consigo apanhá-lo, pois, mal dou por isso, já está outra coisa a acontecer. Esta volubilidade dos acontecimentos inibe-me e, além disso, irrita-me. Estou em maré de confidências. Já expus a minha natureza inibida e irritável. Nada disto seria grave, se a imaginação com que fui dotado fosse terreno propício para o milagre da multiplicação dos assuntos. Não é. Por vezes, sento-me, encaro a minha imaginação de frente, olhos nos olhos. E o que vejo? O problema está aí. Apesar de não ver mal, quando olho para a minha imaginação não vejo nada. Nada significa, neste caso, nada. Penso, então, que ninguém de bom senso se deve culpar por não lhe sair o Euromilhões. Logo, também seria estulto da minha parte sentir culpa por a lotaria genética não me ter dado o grande prémio de nascer com uma imaginação. Retomando o fio à meada – não tenho imaginação, mas sei muitos ditados e expressões populares, sou um adepto do senso-comum –, voltemos ao facto de, em tempos, escrever todos os dias e, agora, estar sempre pronto para fazer umas férias generosas. Talvez a solução seja deixar de escrever todos os dias e passar a fazê-lo todas as noites. É possível que, depois do crepúsculo vespertino, os assuntos comecem a borbulhar em mim. Serão assuntos borbulha. Convém, todavia, não coçar, pois podem infectar. E de infecções estamos todos fartos.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.