sábado, 3 de outubro de 2026

Sobre o Paraíso

Num dos romances de Nikos Kazantzaki, Cristo recrucificado, na segunda página surge uma definição de paraíso: - O Paraíso deve ser parecido com isto! – exclama Charalambos, o bedel -, um sol doce, uma chuva leve, limoeiros em flor, cachimbadas e uma conversa sem fim até à consumação dos tempo. A frase é notável não tanto pelo que diz, mas por aquilo que insinua. Onde está o prazer de cada um, aí está o seu paraíso. O que não deixa de ser perturbador. A perturbação não nasce apenas da multiplicação ilimitada de paraísos, mas na possibilidade de haver paraísos que são ao mesmo tempo infernos. Se o prazer de alguém está em violentar outrem, haverá aí um paraíso e um inferno. Será por isso, podemos imaginar, que o bedel está errado. O paraíso, o verdadeiro paraíso, caso exista, não pode estar ligado ao que nos dá prazer. Não apenas por causa da possibilidade infernal detectada, mas ainda porque, tendo em conta a singularidade dos prazeres – cada um tem os seus –, o paraíso seria um lugar de profunda solidão, pois cada um habitaria um paraíso próprio. Um exercício solipsista. O mais plausível é pensar que esse possível paraíso será um lugar onde todos os prazeres que cultivamos neste mundo são abolidos. Isso resolveria os vários problemas trazidos pelas palavras de Charalambos. O verdadeiro paraíso seria, então, aquele lugar onde não encontraríamos nenhum dos nosso prazeres actuais. Poderá ser um lugar onde existam prazeres de uma outra qualidade, que serão partilhados universalmente. O mais natural, porém, é que seja um lugar onde a própria ideia de prazer não faça qualquer sentido. Há para esta hipótese um bom argumento. Na nossa experiência do mundo, existe uma relação íntima entre prazer e dor. Ora, se um paraíso autêntico é desprovido de dor, também será, por certo, de prazer. Nesse paraíso, o utilitarismo, nas versões mais radicais ou mais moderadas, não tem lugar. Esta frase é enigmática, mas não há nada melhor do que acabar com um enigma, facilmente decifrável, um texto destituído  qualquer de bom-senso.

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