Depois de uns dias fora, retorno à pátria e vejo-a num estado de exaltação por causa de um jogador de futebol. A princípio pensei que toda essa preocupação seria uma manifestação da leviandade nacional. E nisto não há censura. Também a leviandade pertence à lista de coisas permissíveis. Depois, mudei de opinião. Essa exaltação, com partidos pró e contra, era a manifestação de que vivemos no melhor dos mundos. Não se trata de afirmar, como Gottfried Leibniz, que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Não. Se o que nos exalta é um drama em torno do pontapé na bola, então vivemos no melhor dos mundos. Tantos dos possíveis como dos impossíveis. Não temos preocupações espirituais maiores do que saber se as atitudes dos protagonistas são moralmente aceitáveis ou não. Também as preocupações materiais se reduzem ao impacto económico nos actores do drama. Ora, um país cuja população tem estas preocupações não apenas como decisivas, mas como únicas, só pode ser uma pátria abençoada. Até este narrador se sente leve e nada o preocupa, mesmo que não tenha capacidade para seguir o folhetim. Contamina-o o ar do tempo, essa exaltação que se manifesta em todo o lado. É mesmo altura para fazer um acto de contrição e reconhecer aquilo que é importante na existência. Daqui a pouco irá ver o jogo de Portugal com a Dinamarca e avaliar como se desenvolve a excitação nacional motivada pelo tal jogador de futebol.
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