Ao sexto dia de Novembro, a chuva fez uma visita à cidade. Nada que pudesse lavar as ruas e a poeira acumulada nos tempos de sol e calor. Fiquei, por instantes, a contemplar a novidade, mas logo me cansei. Também a chuva se cansou. Saí para ir à minha vida, quero dizer, tomar café na rua, fazer compras e visitar a farmácia para abastecer a gaveta dos medicamentos. A minha vida está longe de ser exaltante, o que é, por esta altura, uma bênção. A seguir ao almoço, sentei-me aqui onde estou e adormeci. Depois acordei, levemente indisposto, e levantei-me. Fui espreitar a rua. Chuviscava de novo, coisa ténue, sem importância. Ninguém se abrigava sob um guarda-chuva, nem se apressava em busca de refúgio. A mais pura indiferença. Os carros passavam, um ou outro estacionava, depois saía de lá alguém, que logo entrava num estabelecimento comercial. A luz do dia, a certa altura, esbranquiçou, mas logo se tornou mais sombria, numa ânsia de crepúsculo, num desejo do sossego da noite. Na avenida, funcionários municipais estendem fio entre árvores. Um prenúncio das iluminações de Natal. Talvez venham com o S. Martinho. Por aqui, são sempre um acontecimento doloroso, uma tristeza disfarçada de garridice espúria. Mais valia deixar a noite poisar sobre a cidade, feri-la apenas com a iluminação pública, em vez de a poluir. Julgo, porém, que faz parte da cultura dos autarcas, seja qual for a sua cor, pensar que espalhar infelizes lampadários pelas ruas lhes assegura não apenas a reeleição como um lugar na história do respectivo município. E como não há coisa que um autarca mais deseje do que entrar para a história, não vale a pena explicar-lhe que aquelas iluminações são de uma tristeza sem fim, talvez adequadas para a Sexta-Feira de Paixão, mas nunca para o Natal. Agora que já desabafei, volto para a minha leitura.
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