sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Falta de regência

Mais um crepúsculo ameaçador. Vento e chuva. São aguaceiros, oiço dizer. Serão, mas estou cansado deles. Dançam as árvores do bosque da escola aqui ao lado, e os pingos de chuva irritantes tamborilam nos vidros das janelas. A noite, porém, caminha coberta pela sua imensidão, trajada de negro, como se fosse uma grande montanha. Na rua, um ou outro transeunte passa sob uma guarda-chuva que se contorce, numa dessas danças a que as novas gerações se entregam, mas cujo nome não encontrou lugar na minha pobre memória. Diante de mim, sem vir ao caso, está uma obra do filósofo germânico-coreano Byung-Chul Han. Tem o belo título, O Aroma do Tempo, e um subtítulo merecedor da melhor das atenções: Um Ensaio Filosófico sobre a Arte da Demora. Ainda não o li, mas sinto-me reconfortado pela designação. Não é fácil dar nomes, veja-se a multidão de nomes inverosímeis que os pais dão aos filhos. Há uma tese fundamental no livro: Falta ao tempo um ritmo ordenador. O tempo andará aos tropeções sem qualquer rumo, nas palavras do autor. Eu acrescento. Anda o tempo e anda o clima, a que também chamam tempo, para confundir as mentes. Deveríamos todos dizer está bom clima, está mau clima, mas não, tropeçamos na homonímia e proferimos frases equívocas como está bom tempo, está mau tempo. Seja como for, com ou sem homonímia, podemos extrapolar, como convém, afirmando que a falta de ritmo do tempo (duração) é a causa das arritmias do tempo (clima). O que me preocupa, porém, é uma frase de Byung-Chul Han: Não há nada que reja o tempo. O que está ele a dizer? Estamos num interregno e não há um regente? Que o tempo é uma orquestra sem maestro que a reja, e por isso toca tudo aos tropeções? Enfim, imagino que sejam os tropeços do tempo (duração), na ausência de regência, que nos trazem crepúsculos ameaçadores. Vou fechar a janela.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.