segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Uma sessão de fisioterapia

Por sugestão do neurocirurgião, estou a fazer fisioterapia. Ele olhou para a ressonância magnética, encolheu os ombros e disse: aqui ainda não tenho nada para fazer. Queria ele dizer: ainda não há nada que exija um cirurgião. Por descargo de consciência, receitou-me a fisioterapia. Por causa das contracturas musculares, acrescentou. Encolhi os ombros e decidi seguir a instrução. Estou arrependido, ou quase. Aquilo é uma seca monstruosa. Uma hora em que acontecem três coisas, para além de me deitar de bruços e de me levantar, meio bêbedo, da marquesa. A fisioterapeuta, depois de me ordenar que dispa a camisa ou o pólo que levo vestido e que me deite, põe uma coisa quente e húmida nas costas, aconchega-a bem aos sítios que imagina serem mais merecedores de atenção e desaparece, talvez se evapore com o calor. E eu fico ali, deitado, a olhar para o chão por um buraco existente na marquesa, onde ponho a cara. Os minutos somam-se, a coisa vai arrefecendo, eu vou pensando na morte da bezerra, até que, como numa aparição, ela volta. Retira a coisa húmida e quase fria. Então, liga-me as costas, em quatro pontos, a uma máquina eléctrica e regula o dispositivo para que me produza um formigueiro em cada ponto. Mal aquilo começa a formigar, torna a desaparecer. Fico por ali, com a bezerra a morrer-me no pensamento, as costas a formigar, sem me mexer, sem olhar para o relógio, apenas a fixar o chão. Quando sinto que passaram pelo menos três eternidades, a fisioterapeuta retorna, desliga-me da máquina e decide dar-me uma massagem. Esta é a melhor parte. Ah… não se pense em coisas dessas. É boa, excelente mesmo, porque dura apenas uns minutos. Acabada a função massageira, recebo a ordem para me levantar com cuidado, não vá cair da marquesa. Assim faço, sinto-me um pouco toldado, visto a camisa e despeço-me. Não me parece ter sido grande ideia cumprir a instrução do médico. Um mero comprimido, uma vez por outra, fazia o mesmo efeito ou um ainda melhor. Nunca fui uma pessoa prática.

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