Na caixa do correio estava a revista Electra, da qual sou assinante há vários anos. Chegado à minha cadeira do escritório, abro-a ao acaso. Um ensaio de um matemático, Étienne Ghys, O caos: história de um mal entendido. Como não é a hora mais favorável para ler o texto, percorro-o com os olhos e paro num ponto que diz: O caos matemático não é ausência de leis. É um comportamento produzido por leis perfeitamente deterministas, cuja complexidade ultrapassa rapidamente a nossa capacidade de previsão. A desordem não está nas equações. Está no nosso olhar. Não me preocupa que isso seja assim na natureza. Aceito, sem protestar, a ideia de Edward Lorenz: O bater de asas de uma borboleta no Brasil pode desencadear um tornado no Texas. Que isso aconteça segundo leis matemáticas rigidamente deterministas, não me tira o sono. Contudo, se aplicar essa ideia às minhas escolhas, às decisões que tomo e às opções que faço, fico perturbado. Eu que pensava que tudo isso era fruto da minha liberdade, que não poderia ser previsto por qualquer análise das cadeias de causalidade, afinal parece resultar de leis matemáticas perfeitamente deterministas. O caso de estar a escrever este texto, coisa que até há pouco me pareceria resultado de uma decisão arbitrária, sem qualquer rígida determinação, afinal é explicável a priori, para quem tenha uma capacidade de cálculo digna do demónio de Laplace. Este texto está inscrito na ordem das coisas que se instalaram com o Big-Bang, ou talvez mesmo antes, caso haja um antes desse acontecimento. A grande questão que se coloca é a seguinte: foi preciso andar tanto para chegar a isto? Ao menos, sempre podia ser determinado a escrever O Processo, o Ulisses ou qualquer outra coisa que valha a pena. Posso estar de acordo com Étienne Ghys, mas todos devem reconhecer que, apesar da rígida regulação matemática, há muito desperdício na natureza.
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