sábado, 14 de fevereiro de 2026

Recalcamento e acto falhado

Finalmente, o estado do tempo permitiu-me sair de casa para caminhar. Não havia chuva, o sol ria-se, mas, por vezes, escondia-se, numa partida de Carnaval. As pessoas puseram-se a andar, a correr, a pedalar, como se se quisessem vingar da reclusão. Fiz o percurso habitual e não encontrei nada fora do lugar. Foram removidas árvores que tinham caído e o ambiente está pronto, por aqui, mas não em outros lugares, para que as pessoas esqueçam. Ora, esquecer é ao mesmo tempo uma coisa boa, pois dá espaço para que outras coisas se depositem na memória, mas também é péssima, já que anula qualquer aprendizagem que estes dias tenham trazido. Talvez seja por isso que somos um povo de surpreendidos. Adoramos surpresas e esquecemos para que nos possamos surpreender quando os desacatos climatéricos nos baterem à porta. O autor acabou de me ordenar para acabar com este tipo de discurso que raia a política, coisa que está por aqui proibida. Encolhi os ombros, não sem um olhar de desdém e um toque de arrogância, e expliquei-lhe que o que estava a escrever era uma espécie de psicanálise social, estava a explorar o problema do recalcamento, neste caso social. Ele enviesou os olhos de tal modo que, por instante, pensei que tinha envesgado, mas não. Endireitou os olhos e disse que podia continuar a narrar, desde que me ativesse ao domínio das relações entre ego, superego e id. Até podia falar na interpretação dos sonhos sociais, mas não das utopias e das distopias políticas, e dos actos falhados. Contudo, a sua intervenção intempestiva e impertinente distraiu-me e tirou-me o apetite de continuar a escrever o que estava a escrever. Apetece-me antes bocejar e ir estudar a aplicação de meteorologia para saber quais as previsões para amanhã.

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