quarta-feira, 8 de julho de 2026

Aquilo que se perde

Por vezes, tento recuperar uma face que se perdeu no passado. Era uma pessoa conhecida, mas que depois desapareceu levada pela vida e pela morte. Sinto necessidade de a reaver para a integrar numa história que estou a contar a mim mesmo Aquele rosto, outrora tão definido, é agora uma zona obscura, um buraco negro onde a luz daquelas imagens antigas se perde. Muitas vezes, vejo os gestos dessa pessoa, o modo como caminha, a voz que lhe sai da boca ou, pelo menos, a que ressoa nos meu ouvidos. Fico desolado, como se algo me tivesse sido roubado. Outras vezes, o objecto perdido é um nome. A imagem da pessoa está completa na minha memória, mas o nome desvaneceu-se. Quando se combina a perda da face e do nome, começo a desconfiar que esse alguém nunca existiu. Estará a ser imaginado por mim naquele instante. Não há motivo de desconfiança, penso, e recomeço a busca de rosto e nome que se foram. Estes episódios não acontecem nem ao adormecer, nem ao despertar. Vêm até mim quando estou bem acordado. Como Descartes, poderão argumentar que não existe qualquer critério fiável para distinguir o sonho da vigília. Concedo a dificuldade, mas há uma crença inabalável em mim de que neste momento não estou a sonhar, e que o tormento do desaparecimento de faces e nomes não é um pesadelo. Escrevo, logo estou acordado, mesmo que me digam que apenas sonho estar acordado a escrever. Não sou Descartes, o que qualquer um se aperceberá ao primeiro olhar, por isso não tenho necessidade de demonstrar a existência de Deus para me certificar, por ínvios caminhos, de que não estou a sonhar. Desconfio que se o fizesse, Deus ficaria irritado comigo. Estar-me-ia a servir dele para os meus interesses mais mesquinhos, como provar ao leitor que não estou a delirar.

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