terça-feira, 27 de outubro de 2026

Sem pulsões

A aplicação que me controla o sono teve a amabilidade de me informar que foi adicionada uma sesta. Fiquei deslumbrado. Não pela informação, mas pela minha regularidade. Dormi desde as 16:28 até às 17:28. Uma hora exacta. O enlevo nasce da precisão da inconsciência. Se me tivesse proposto a dormir uma hora, haveria de dormir 54 minutos ou mesmo 66, embora o mais certo fosse não dormir. Na sequência de uma digestão relativamente pesada, e após ter caminhado meia hora e recorrido a S. Gurosan, sentei-me à secretária e adormeci sem dar por isso. Que lição posso tirar? O meu inconsciente é muito mais preciso do que o meu consciente. Isto colide com a teoria do velho Sigmund Freud. Segundo ele, o inconsciente pulsional foge às regras da consciência clara. Não é dado a exactidões apolíneas, mas a desmandos dionisíacos. Agora, desconfio que não tenho pulsões no infra-eu, mas apenas regras rígidas e amantes da exactidão. Onde os outros têm a desrazão, tenho eu a razão. Uma razão pura e geométrica. Com tudo isto, anoiteceu. Nem dei pelo crepúsculo. O que fará sentido, pois nele há sempre qualquer coisa de dionisíaco.

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