domingo, 11 de janeiro de 2026

Cinzento sobre cinzento

Como o mundo, o domingo está triste e cinzento. Não é que falte colorido ao mundo. Pelo contrário, existe nele uma paleta de cores exuberante, mas, quando todas essas cores que por aí pululam chegam ao cérebro, por uma obscura alquimia, transformam-se num cinzento pastoso e ameaçador, o prelúdio das trevas. Quanto ao domingo, este é muito menos dramático. É cinzento porque lhe falta luz, e uma chuva fina, sem intermitências, cria uma barreira sólida ao papel dos raios solares. Para que a preocupação não desça sobre mim, escolho o cinzento do domingo ao cinzento do mundo. Assim, posso fazer melhor a digestão do almoço, enquanto o mundo caminha preso a uma lógica que parece estar a tornar-se imparável. Uma lógica que não anuncia o melhor dos mundos possíveis. Pelo contrário. Tenho de sair e enfrentar o clima, embora o sacrifício não seja grande ou sequer exista. É verdade que não me apetece levantar do sítio onde escrevo, mas há coisas piores na vida. O mais extraordinário, porém, é que, por piores que sejam as coisas, sempre haverá outras piores, num declive escorregadio infinito. Dir-me-ão que, também perante as coisas boas, sempre se descobrirão outras melhores, numa escala infinita. A grande diferença é que, para atingir as piores, é só uma questão de descer, enquanto, para alcançar as melhores, há que subir. E subir é infinitamente mais difícil do que descer. Ite, missa est.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Habitus

Passado mais de um ano da morte da mãe, estive a desfazer a casa dos pais. A frase surpreendeu-me. A surpresa conduziu-me a uma pergunta: Que tipo de narrador sou? Um narrador tem uma existência meramente literária, respondo-me. Não existe qualquer narrador de carne e osso. São todos seres imaginados, criações de imaginações delirantes. Sendo assim, a frase inicial é falsa. A surpresa, porém, está na forma do enunciado, a ausência de pronomes possessivos para mãe e pais. Um habitus linguístico que é, ao mesmo tempo, um habitus social. Como se o narrador pertencesse a uma certa classe social que simula o afastamento dos pais para parecer que está a fazer um relato objectivo, ocultando a dimensão afectiva presente no uso dos possessivos. Contudo, esta objectividade é um dispositivo retórico que visa a hiperbolização do pai ou mãe referidos. Essa mãe ou esse pai deixam de ser mãe ou pai particulares, limitados e finitos, mas, através da enunciação, passam a ser mãe e pai universais, dotados de um poder de fecundidade que os tornam pais de toda a humanidade, uma encarnação de Adão e Eva, mas infinitamente mais potente. Enquanto os membros das classes populares possuem pais próprios, os das elites sociais – fundamentalmente, as letradas e tradicionais – têm de partilhar a filiação com toda a humanidade, sem que isso, porém, tenha impacto na herança. Tem-se o melhor dos dois mundo: uma parentalidade universal e uma herança particular. Caso me perguntem – o que não acontecerá – o que me levou a escrever isto, a única resposta séria é dizer que já não me lembro. O esquecimento não é um alibi que permite escapar a perguntas indelicadas, mas uma deficiência ontológica, trazida pelo tempo, da memória. Isto no caso de a memória possuir ser. Um dia, espero ter paciência – infinita, sublinhe-se – para suportar, enquanto narrador, as idiotices que o autor me obriga a assumir como minhas.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Patati patatá

Estes dias têm sido de tal modo ocupados que só me sento no escritório depois de jantar, mais morto do que vivo. Eis uma expressão que parece uma hipérbole, mas que, na verdade, não passa de uma atenuação da natureza existencial de tudo o que é vivo. A frase parece significar que se está mais morto do que vivo numa dada circunstância particular, devido a um cansaço extremo. A realidade, porém, é outra. Qualquer ser vivo — onde os homens se incluem, apesar de nem sempre parecer, assemelhando-se antes a matéria inanimada — está sempre mais morto do que vivo, pois a morte é muito maior do que a vida. Nem vale a pena recorrer à dramatização heideggeriana do Dasein como ser-para-a-morte, o estar projectado para a finitude, patati, patatá. É apenas uma questão contabilística e talvez geográfica, caso se pretenda metaforizar: cada vida é uma minúscula ilha rodeada por um infinito e tenebroso mar de morte, que não devemos confundir com o Mar Morto. Voltando aos dias, o de hoje é só semi-ocupado. Só a tarde estará realmente ocupada, o que me permite ter a manhã para escrever disparates, pensar em coisas inúteis e, sabe-se lá por que razão, sentir o desejo infantil de voltar a ler a Alice no País das Maravilhas e a Alice do Outro Lado do Espelho. O autor, Lewis Carroll, tinha vários defeitos — ser um lógico e um matemático, por exemplo — e uma virtude: a de explorar o ilógico, o absurdo, o non-sense. E, neste caso, a fama compensou a virtude e castigou o vício. Quem se lembra do matemático ou do lógico? Mas toda a gente sabe quem é o autor de Alice, onde ele explora a galáxia do ilógico, do absurdo, do non-sense. Que eu tenha tido este súbito apetite de retornar à infância — mas, confesso, também li as Alices enquanto estudava lógica e me entretinha a fazer demonstrações de teoremas, sabe-se lá para quê — talvez seja o sinal do absurdo em que tenho ocupado estes dias.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Flatus vocis

Pensei que me tinha aposentado da realidade. Ora, este foi além de um cálculo sofrível, uma suposição inútil e sem fundamento. Esqueci o outro lado da relação, a própria realidade. Ela não se aposentou de mim e está sempre disposta a visitar-me, retirando-me do sossego trazido pelo devir e o consequente acumular dos anos, para me obrigar a olhá-la nos olhos. Não tive outro remédio, e, como é habitual, sempre que se olha para a realidade, apesar de ser um nome feminino – noutro tempo dizia-se substantivo feminino – não é uma bela mulher, mas uma megera desdentada. Tenho, no entanto, uma pequena consolação. A evolução da nomenclatura gramatical trouxe à realidade uma despromoção. Como disse acima, eu aprendi – pelo menos, é o que imagino – que ela era um substantivo, isto é, referia-se a uma substância. Agora, porém, não passa de um nome. Trata-se de uma vitória na secretaria do nominalismo sobre o realismo, uma vitória copiosa, pois quando nominalistas e realistas terçaram armas, o que estava em jogo eram os universais, como humanidade, vermelhidão, justiça, igualdade, etc. Os realistas diziam que estes universais possuem algum tipo de realidade independente dos particulares que as compõem. Os nominalistas negam a existência de universais. São meros nomes, não são substâncias. Agora, até o gato da minha vizinha – caso eu tenha uma vizinha e ela, um gato – não passa de um nome. Uma vitória exuberante do nominalismo através da gramática, uma vitória que nos diz que tudo é nome. Quando a velha desdentada não passa de um flatus vocis, apesar de incomodativo, caímos no mais puro niilismo.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Um dia

Hoje, o novo ano arrependeu-se daquela sua face cinzenta, fria, quase iracunda. Quando despertei, descobri-o jovial e convidativo. Fui caminhar neste primeiro domingo e as poucas pessoas com que me cruzei pareciam, também elas, estarem num domingo. Um acontecimento raro, este acordo de cataduras. A norma é que, por exemplo, num domingo, existam pessoas com feições de sábado, ou de quarta-feira, ou de sexta-feira, ou de qualquer dia da semana excepto aquele que o calendário indica. Um traço cultural persistente, não respeitar as indicações do calendário. É um facto que, durante a semana, as pessoas respeitam essa indicação. Contudo, estamos perante aparências. O que as move é o medo do que lhes pode acontecer se, estando em plena terça-feira, aparentem estar, no sítio onde exercem funções para enfrentar as necessidades da vida, num sábado ou num domingo. A humanidade rodeou-se de calendários, mas detesta-os. É um traço arcaico, geneticamente proveniente do tempo em que os seres humanos ainda não se tinham enrodilhado nas redes desses calendários. Para eles, nossos antepassados, não havia dias da semana, pois cada dia limitava-se a ser aquilo que era: um dia.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Da certeza e da falsidade

Sobre coisas incertas, não deveriam os homens fazer afirmações categóricas. Veio isto a propósito de umas linhas lidas num prestigiado ensaísta – pelo menos para certas correntes, pois, nesta coisa de ensaios, cada um prestigia o que lhe apetece – que deixou a vida a 10 de Janeiro de 1925, portanto, há quase 101 anos. Ora, num dos seus ensaios, fazia juízos categóricos que o tempo se limitou a mostrar como falsos. Podemos afirmar categoricamente que algo é água se, e só se, for H2O. Quando se entra em campos movediços como a moral, a política, a economia, o melhor é moderar o entusiasmo e admitir possibilidades em vez de proclamar necessidades. É claro que neste sítio se fazem não poucas afirmações peremptórias, mas todas elas – com excepção de que água é H2O – são falsas a priori. O que torna estes escritos particularmente tranquilizadores e mesmo pacíficos. De tal modo pacíficos, que o autor mereceria o Prémio Nobel da Paz, mais do que muito dos contemplados. Isso, porém, não são contas do rosário deste narrador. Sempre que se afirma algo por aqui, sabemos que é falso. Logo, não há necessidade de perder tempo em refutar os ditos. Não se pense, contudo, que só afirmações científicas são intrinsecamente verdadeiras. Há outras que, não sendo científicas, são necessariamente verdadeiras. Para descansar de tantas afirmações falsas feitas ao longo dos anos, deixo algumas necessariamente verdadeiras: “Todo o solteiro é não casado”.Toda a promessa é um compromisso.” “Todo o efeito tem uma causa.” Para concluir, aquela de que mais gosto: “Todo o mentiroso diz o que não é verdadeiro.” O problema destas afirmações reside no seguinte: os solteiros podem casar-se, as promessas podem não ser cumpridas, as causas podem recusar-se a ter efeitos (é inverosímil, mas foi o que me ocorreu) e o mentiroso, por engano, pode dizer a verdade. O que não foi ainda o caso.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Humores

Já estamos no segundo dia de 2026 e ainda não consegui perceber qual a diferença com os dias de  2025, para que o ano tenha direito a um novo nome. Os nomes servem para diferenciar e quando algo não é diferente, então não se lhe deve reconhecer a diferença com nova designação. Aqui chegados, podemos entrar na velha polémica entre os seguidores de Heraclito (Heraclito e não Heráclito) e os sequazes de Parménides. Os primeiros gritarão que tudo muda, ninguém se pode banhar duas vezes na mesma água do mesmo rio. Os outros encolherão os ombros e erguerão cartazes dizendo o devir é uma ilusão, o ser é e não pode não ser. Quando me sentei para escrever o que estou a escrever decidi ser um correligionário, por hoje, do velho eleata, isto é, de Parménides. Amanhã, cansado da imobilidade do ser, talvez me converta à doutrina do efésio, ao πάντα ε (tudo flui). Assim, hoje nego a mudança do ano, porque nada flui. Amanhã, recomposto destes dias, reconhecerei que afinal estes dias de 2026 são mesmo diferentes dos que deixámos em 2025. Ofereço, deste modo e para comemorar o Ano Novo, uma grande tese ao mundo: a filosofia é uma questão de humores. Ora, como estes são volúveis, a mesma pessoa pode ter diversas filosofias, para usar, como o corpo usa diversas camisas, em conformidade com estado desses humores, ou do clima, ou de outra coisa qualquer à sua escolha. Contudo, há aqui um problema. Os humores, como se sabe desde a antiguidade, são líquidos orgânicos – sangue, bílis, atrabile e fleuma – e todos os líquidos têm uma queda para o fluxo e para o movimento. O que implicaria que possuir um humor parmenídio seria uma contradição. Era como se afirmasse que tudo flui imóvel. Há, porém, uma explicação que salva esta contribuição para o bem da humanidade. Por vezes – quem nunca sentiu isso? –, a fleuma congela e até o temperamento mais bilioso se imobiliza como o Ser de Parménides. Nessa hora, ninguém crê no movimento, nem tem pressa para chegar a qualquer sítio, pois não há sítio para ir. É o que acontece comigo no dia de hoje. Sou um adepto da imobilidade, fustigo as ilusões dos sentidos e concordo com a razão quando esta afirma que toda a coisa é igual a ela mesma. Coisa em que, noutros dias, não creio por um instante sequer.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Começos

O carrocel do ano começou uma nova viagem. Estas jornadas têm sempre o mesmo objectivo, chegar ao fim e dar de imediato sinal de partida para outra. Síndrome iterativo do calendário seria um nome excelente para esta patologia. Se fosse uma expedição sem destino marcado não se saberia onde seria a meta. Contudo, esta viagem nunca é isenta de surpresas, e quanto a estas, como se sabe, o melhor é não as haver, pois o saldo entre as boas e as más tende a ser desvantajoso para o surpreendido. Esta visão das coisas, em particular do calendário e da doença que existe no seu ser mais íntimo, é uma ontologia pessimista, o que fica sempre bem ostentar, ao modo de emblema, na lapela, como certos políticos por esse mundo fora usam, para enfeitar, a bandeira pátria na banda do casaco, provavelmente porque não a sentem no coração. Alguns argumentam que ter a pátria no coração desequilibra o ritmo cardíaco e pode causar um enfarte do miocárdio. Isto, porém, não são contas do rosário deste blogue, cujo narrador – eu – está proibido pelo autor – um tirano sem nome – de derramar a sua verve, enorme e sábia, sobre assuntos políticos. E como narrador timorato, receia, temente e tremente, que uma constatação dos costumes da tribo seja tomada como incursão em território vedado. Por isso, recua rapidamente, antes que os guardas-fronteiriços disparem à queima-roupa e passe de narrador vivo a narrador morto, o que, para ser rigoroso, é uma impossibilidade ontológica: se se está morto, não se narra seja o que for; se se narra alguma coisa, então não se está morto. Embora muitas narrativas, incluindo as deste espaço, tenham menos vida que aquela que existe num morto. Este primeiro texto do ano não augura nada de bom. Não em relação ao mundo ou mesmo ao calendário e às suas patologias, mas aos textos que poderão vir. O problema reside no desacerto entre narrador e autor. Jogam em clubes diferentes, votam em partidos diferentes, até casaram com mulheres diferentes. Eu bem queria que estes textos fossem o meu Livro do Desassossego. Quase que adopto o nome de Bernardo Soares, mas o autor, cujo talento é ridículo, tem a honestidade de não se fazer passar por Fernando Pessoa. Disse-me um dia, à laia de desculpa, que odiava o nome de Fernando, que está grato aos pais por lho não terem posto, e quanto ao apelido Pessoa é uma coisa equívoca, por causa das ressonâncias com o pronome indefinido personne francês – ninguém – e com a persona grega – máscara. Que para mascaradas basta o que basta, acrescentou ele, sem que eu tenha percebido o que queria dizer com aquela frase enigmática.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Destinos

Uma coisa boa trazida pela idade é o desinteresse pelos balanços do ano que finda e pelas profecias sobre o que está a chegar. Há umas décadas, dava algum tempo para ler, nos jornais que então comprava, e eram alguns, essas prosas feitas sobre o que o ano fez ao mundo e aquilo que o que vier há-de fazer. Olhava para trás e olhava para diante. Imagino agora que essa literatura não seria particularmente interessante. A única prova – e é uma prova enviesada – é que fui deixando de a ler. Há uma outra alternativa para explicar essa desistência: o medo. Sim, o medo de ter um destino como a mulher de Lot, por um lado, e como o de Actéon, por outro. A Lot foi dito para abandonarem Sodoma, mas que não olhassem para trás. A mulher não resistiu e foi transformada em estátua de sal. Pior destino teve o pobre Actéon. Olhou para a frente e viu Diana despida. A deusa não gostou e transformou-o num cervo. Ora, os seus cães, ao avistá-lo e vendo nele o cervo que agora era, não hesitaram e estraçalharam-no. Se posso dar um conselho, neste último dia do ano, é o de não se preocuparem com o ano que passou, para não se tornarem em estátuas de sal, nem tentem olhar para o que aí vem, não seja o caso de estar alguma deusa nua que condene o voyeur à condição de presa da sua própria matilha. Há que ter cuidado com o destino. De resto, um bom ano.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Uma tarde

A tarde passou num instante. Um jogo de Xadrez com o meu neto. Depois, uma rápida saída, com ele, ao supermercado para fazer umas pequenas compras. Deixadas estas em casa, fomos visitar a Letrinhas. Não por minha iniciativa, mas dele. A Letrinhas é a gata da livraria do outro lado da rua. Ele confraternizou com a gata, não muito, pois ela nem sempre está pelos ajustes. Resultado: comprei-lhe dois livros da Enid Blyton. Imagino que não sejam dela, mas adaptações com imagens coloridas e texto curto e com letras de dimensões próprias para idade do contemplado. Uma adaptação das aventuras dos Cinco. Já não me recordo a idade em que li essas aventuras, mas era, por certo, mais velho do que ele. Conheci um advogado que ainda na casa dos cinquenta lia as aventuras dos cinco. Dizia-o com orgulho, como se fosse uma idiossincrasia digna de se ostentar. E talvez fosse. Não tenho propensão para esse retorno à casa de partida, mas nunca se sabe. Agora, ele foi-se embora, depois de ver não sei quantos episódios da Pantera Cor-de-Rosa. Na minha companhia, pois se as aventuras da Enid Blyton são coisas enterradas na infância, ainda me rio com os desmandos da mais inteligente pantera que este mundo – e talvez outros – viu em acção.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Um moralista falhado

Observemos os seguintes começos de romances: “Eu andava, aquele Inverno, sacudido por abstractos furores.”; “Erica chegou à grande cidade no final duma guerra. Era Inverno, fazia frio e as fontes das praças estavam geladas.”; “O Inverno de 44, em Milão, foi o mais calmo que tinha havido desde um quarto de século...”. O primeiro começo pertence a Gente da Sicília; o segundo, a Erica e os Irmãos; o terceiro, a Os Homens e os Outros. Estes começos têm duas coisas em comum: pertencem a romances escritos por Elio Vittorini e, como se terá reparado, referem, todos eles, o Inverno. Disto nasce um enigma: o Inverno será uma estação universalmente propensa a figurar no início de um romance ou será apenas uma idiossincrasia de Vittorini? Contudo, o enigma não me motivou para qualquer investigação. Preferi levantar-me e ir comer uns quadrados, em forma rectangular, de chocolate preto com amêndoas. E esta é a minha lição moral de hoje: sempre que um enigma se ponha à porta da consciência, o melhor a fazer, para não desvendar os segredos que nascem no inconsciente, é comer chocolate. É uma modalidade prática e quase sem custos para manter os enigmas no seu estado enigmático. Não há nada de mais infeliz do que ver um enigma deixar de o ser; não apenas aquilo que é enigmático se trivializa, como essa trivialização contamina aqueles que viam o enigma como tal. Devia ter feito vida — penso-o agora que é demasiado tarde — de moralista. Percorreria o país, talvez o mundo, a dar lições de moral, distribuindo injunções, mandamentos, preceitos, prescrições e imperativos. Seria, estou certo, um moralista completo, e quem me escutasse haveria de tornar-se num ser moral. Das coisas mais triviais ou das mais absurdas haveria de extrair uma lição e mesmo uma máxima. Não me ocorreu, enquanto era tempo, a possibilidade. Talvez tenha falhado a existência, mas também não é todos os dias que se encontram três romances do mesmo autor com o Inverno dentro do começo. E o Inverno é uma óptima estação para moralizar. Ou talvez não, quem sabe.

domingo, 28 de dezembro de 2025

O céu estrelado

O ano espraia-se em lenta agonia, agora que o porto está próximo e da amurada do navio já se avista o cais e a nova pátria a que todos os nós, migrantes no tempo, ansiamos chegar. Que conversa mole, pensei. Depois, o pensamento rodopiou, caiu aqui e ali e ficou-se, por instantes, numa experiência cada vez mais rara. Contemplar o céu nocturno sem que a poluição luminosa interfira com o olhar, deixar-se envolver pelo tremendo espectáculo estelar. Como um macaco mal amestrado, a mente saltou de imediato para uma passagem, de tonalidade lírica, de Kant, no início da Conclusão da Crítica da Razão Prática: Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequente e persistentemente a reflexão nelas se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim. Não devo buscar ambas como se estivessem envoltas em trevas ou no transcendente, fora do meu horizonte, nem apenas supô-las; vejo-as diante de mim e ligo-as directamente à consciência da minha existência. Talvez por ter sido educado – educado filosoficamente – na rigorosa disciplina de Kant e do Idealismo Alemão, estas palavras do filósofo de Konigsberg nunca deixam de me surpreender. Sim, é inverosímil que um animal traga em si os ditames da lei moral, que somos mais do que a matéria de que somos feitos e haveremos de entregar à Terra de onde foi retirada, e esse mais manifesta-se na posse da lei moral. Contudo, o céu estrelado sobre mim é uma experiência decisiva. Como Kant sublinha, olhar para uma multidão inumerável de mundos aniquila, por assim dizer, a minha importância como criatura animal. É essa experiência de aniquilação do eu que tantas vezes procurei na vertigem de olhar, na escuridão da noite, o céu estrelado, a multidão inumerável de mundos, a impotência de os perscrutar e de saber deles mais do que as poucas trivialidades – embora grandiosas – que a Astronomia deles me pode dizer. O fim do ano aproxima-se, o que não se aproxima é esses mundo incontáveis, com os seus mistérios e o mistério de todos os mistérios: por que razão tudo isto, comigo incluído, e não o nada, a pura ausência seja do que for, isto para voltar à decisiva questão posta por Leibniz, Cur magis est aliquid quam nihil? (Por que existe algo em vez de nada?), que Heidegger retomou, não sem dramatismo, no século XX. Talvez a pergunta tenha perdido sentido, não porque ela não seja a mais importante, mas porque já não vemos o céu estrelado sobre nós ou porque o que importa seja as festividade de passagem de ano; o que, do ponto de vista pragmático, será o mais sensato.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Antigas angústias

Pior do que a angústia do guarda-redes no momento do penalty, era a do bebedor de café nos dias de Natal e de Ano Novo. Naqueles tempos em que se frequentava cafés, estes tinham uma prazer sádico em fecharem as portas nos dois dias em que eram mais necessários. Numa vila de província, o que então esta cidade era, havia um desporto. Encontrar um café que tivesse rompido a concertação dos proprietários e oferecesse aos seus clientes – e aos dos concorrentes – a oportunidade de tomar um café a sério, e não aquele que se podia beber em casa, por melhor que fosse o lote e a cafeteira Bodum, passe a publicidade, e outras engenhocas como cafeteiras de êmbolo, sistemas de filtro, cafeteiras de balão ou vácuo. Sim, o café era excelente – quando era –, mas nada que se comparasse a um café no café, que naquele tempo dava pelo nome de bica, aqui para estes lados, e, lá para cima, de cimbalino. É verdade, tomei bicas e até cimbalinos. E resisti. O pior era encontrar naqueles dias um sítio que abrisse as portas e os servisse. Isto é a minha experiência de habitante de uma pequena vila, de um vilão, para ser mais exacto. Depois, nem Deus sabe a razão, a vila foi elevada a cidade. Houve uma metamorfose, embora seja imprecisa a sua natureza: os cafés terão começado a abrir naqueles dias aziagos ou terei deixado de ir ao café? Talvez as duas coisas, mas não consigo precisar o que aconteceu. Os tempos mudaram, os próprios guarda-redes deixaram de se sentir angustiados no momento do penalty, e eu bebo café em casa, numa daquelas máquinas que mói o café e oferece uma bebida digna de ser bebida com devoção, dependendo do lote, da angústia do bebedor e do penalty ser a favor ou contra a sua equipa. Sim, os guarda-redes já não sentem angústia, mas o adepto sente. O que não é o meu caso. Sou um adepto não praticante, e mesmo o café bebo com moderação, não vá o árbitro mostrar-me cartão vermelho. O que me custa é que a cidade não seja promovida a vila, coisa que era no tempo da fundação da nacionalidade, que eu seja considerado um citadino, conquanto a minha alma continue a ser a de um vilão, que um dia bebeu bicas e cimbalinos e sentiu, na busca por um café aberto, a angústia do guarda-redes no momento do penalty, isto para dar um ar de erudito e citar Peter Handke.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Encerrado para balanço

Em tempos, talvez há muitos anos, não me lembro se entre o Natal e o Ano Novo, se após o Ano Novo, os estabelecimentos comerciais ostentavam na porta uma comunicação ao público: Encerrado para Balanço. E assim ficavam uns dias, embora nunca tenha descoberto como, dentro dessas casas respeitáveis, proprietários e empregados se balanceavam, ou qual a intensidade do balanceamento para que tão distintas empresas tivessem de estar encerradas, privando a estimada clientela dos seus serviços. É possível que aqueles que nelas trabalhavam ou mandavam rodopiassem a grande velocidade, o que não lhes permitiria ter as portas abertas, não fosse alguém projectado pela porta e atingisse um estimado cliente que, de susto ou com a violência do choque, pudesse ir parar ao hospital em estado comatoso, com prognóstico reservado e com possibilidade de aí a uma semana lhe estar a ser rezada por alma a missa do sétimo dia. Imagino que essa tradição de encerramento para balanço e as respectivas actividades de balanceamento tenham sido abolidas, pois, por mais que procure, não encontro estabelecimento com a velha frase. Talvez o perigo que nelas havia tenha levado algum grupo parlamentar preocupado com a saúde de proprietários e empregados, bem como com a segurança da estimada clientela, a legislar no sentido de proibir a actividade, no que, num momento raro, foi secundado por todos os outros grupos parlamentares, que, após a aprovação do diploma de proibição, se aplaudiram uns aos outros, esquecendo não apenas rivalidades pessoais como diferenças ideológicas irreconciliáveis. Terá sido uma verdadeira união nacional, muito mais verdadeira do que aquela que existiu no século passado. Agora está sempre tudo aberto, ninguém faz balanços nem se balanceia, nem aborrece a estimadíssima clientela que nunca se lembrava de que o estabelecimento fecharia para balanço e, não poucas vezes, batia com a nariz na porta, fracturando o septo nasal e entupindo as urgências dos hospitais e dando trabalho a uma legião de cirurgiões.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Tempo de Natal

Não tarda e a noite de Natal estará consumada. Depois, virá o dia de Natal, que também passará após vinte e quatro horas, entre uma e outra meia-noite. É sempre assim, mas devo sofrer de um problema de adaptação à realidade, pois, dentro de mim e apesar de saber que nada mudará, tenho sempre a esperança de que o tempo de Natal se dilate. Não por causa das festividades, almoços e jantares, mas para abrir uma clareira temporal para que possa compreender o que é, na verdade, o Natal. A mistura deste com a temporalidade comum retira-lhe aquilo que tem de diferente. O tempo, porém, resiste à dilatação, passa a galope, desejoso de chegar ao fim do ano e entrar, de novo, na realidade. Estou a ser impreciso. O tempo não se desvia da realidade. São os homens que, nestes dias, se desviam da realidade, mas lá estará o 2 de Janeiro para lhes lembrar aquilo que é. O que se passa por aqui com o Natal, passar-se-á noutros lugares com outras festividades. Também aí haverá quem espere a dilatação do tempo para compreender o que se vive, mas este terá um comportamento absolutamente democrático e frustrará a esses aquilo que me frustra a mim. O tempo não tem religião, cultura ou visão do mundo. Limita-se a passar. Caso exista, coisa que que não é clara.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Palavras equívocas

Resisti a comprar uns livros do filósofo francês Alain Badiou. A resistência é uma modalidade de se relacionar com a tentação. Que outras modalidades haverá? Talvez existam mais do que se possa pensar. Isso, porém, é assunto que não me interessa no anoitecer deste dia. O que me interessa é a distinção entre verdadeira e real. Ainda por causa de Badiou. Estava a percorrer a listagem dos seus livros, numa venda online, e deparo-me com uma edição portuguesa com o título Metafísica da Verdadeira Felicidade, mas logo de seguida apareceu-me a edição francesa:  Métaphysique du bonheur réel. Isto mostra a elasticidade do termo verdadeira. Pode designar que uma certa afirmação está de acordo com os factos. Por exemplo: Lisboa é a capital de Portugal. Como pode designar que uma certa coisa tem realidade. Como não conheço o livro, não sei se a tradução de réel por verdadeira está ajustada ao conteúdo. Todavia, caso fosse eu o tradutor manteria o título o mais próximo possível do original: Metafísica da Felicidade Real. Qual o motivo? Já o título original tem três palavras e todas elas são bastante equívocas, a começar por metafísica. A troca de real por verdadeira acrescenta equivocidade à equivocidade. Soa bem em português, mas imagino que num tratado de filosofia não seja o som que esteja em causa, mas o sentido, isto para usarmos essa feliz expressão som e sentido que alimentou, em forma de querela, não pouco debates no campo da poesia.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Cromos da bola

Acontece a muitos filósofos – dos mais importantes – aquilo que acontece às pessoas comuns que evitam dedicar-se à filosofia: com a idade, mudam de ponto de vista. Isto devia fazer suspeitar aos filósofos que as suas teorias são fruto da idade, o que introduz o mais terrível dos relativismos. Ora isto pode levar-nos para uma mar tumultuoso. O que pensaria Platão aos 120 anos? E Kant, aos 150, ainda aceitaria a fase crítica, aquela que lhe trouxe a glória e um lugar especial no altar da capela filosófica? Fala-se no primeiro e no segundo Wittgensteins. Também existe um primeiro Heidegger e um segundo. Mas se eles vivessem 250 anos, quantos haveria? Seriam tantos quantos os heterónimos de Fernando Pessoa? Não o podemos saber, mas temos direito a desconfiar que seriam legião, caso os filósofos fossem verdadeiros matusaléns, com direito a quase mil anos de vida. Mudariam, pelo menos, vinte vezes de posição. O que lhes valeria é a existência de um secreto armazém onde se guardam milhares de milhões de posições filosóficas possíveis. Portanto, não haveria perigo de o mercado se esgotar, desde que houvesse talento para as descobrir, abandonando, sem piedade, as anteriores. Renegando-as, caso fosse necessário. Uma pessoa comum, como este narrador, não precisa de se dedicar à filosofia, para mudar de ponto de vista. Basta acordar com o desejo de ver as coisas de outro modo. Procuro no armazém e passo a ver as coisas de outra maneira. O mais interessante, porém, é que as coisas são de grande cordialidade. Não se revoltam, nem sequer protestam. Aceitam impávidas e silenciosas as minhas idiossincrasias, e ainda mais as dos filósofos. Esta falta de temor das coisas radica numa certeza que as habita: os humanos podem mudar mil vezes de ponto de vita sobre nós, isso, porém, não altera um grama aquilo que somos, coisa que nunca saberão. Que envelheçam a coleccionar pontos de vista como, antigamente, os rapazes coleccionavam cromos da bola.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Um texto solsticial

Este é o dia mais pequeno do ano. Também este deve ser o texto mais pequeno, não apenas em dimensão, mas na relevância dos assuntos. É um texto solsticial de Inverno que tem a energia de nada dizer. Deixa que as palavras a escrever soçobrem no silêncio, como a luz se dissolve nas trevas. A matéria do mundo e o espírito extramundano calam-se, como se tudo estivesse para acabar na sonolência do crepúsculo.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Tábua de salvação

A suspensão voluntária da descrença proposta por Coleridge, como uma espécie de fé poética, seria aquilo que permitiria ao leitor acompanhar a leitura de obras com personagens fantásticas como se estas fossem reais; um pacto tácito entre autor e leitor. A expressão teve – e tem – um enorme sucesso, tendo-se transferido do terreno da literatura fantástica para outros géneros fantásticos, como a ficção científica, mas também para a ficção literária. Não seria descabido, todavia, pensar que, para ler, por exemplo, livros de História baseados em investigação séria, também é preciso suspender voluntariamente a descrença, descrença aqui baseada na desconfiança na possibilidade de recuperar, através da investigação, o passado – melhor, de construir uma imagem ou representação exacta desse passado. Todavia, essa não será ainda a utilização mais proveitosa e corrente que se faz da tese de Coleridge. Onde ela é mais eficaz é na nossa relação quotidiana com a realidade, tanto a natural como a social e a individual. Vivemos segundo um conjunto de crenças sobre essas realidades que estão muito longe de terem fundamento. Ora, se procurássemos o fundamento dessas crenças, a vida tornar-se-ia impossível, pois ficaríamos presos em investigações que nunca teriam fim. A educação é o processo em que aprendemos a suspender a descrença sem que nos apercebamos disso. Formamos crenças sobre a ameaça da descrença, mas esta, pelo hábito em que somos formatados, está suspensa. Voluntariamente? Não, se se olha do ponto de vista do indivíduo; sim, se se observa a partir da espécie. A espécie humana é aquela que aprendeu a suspender a descrença para poder persistir. Só de modo muito limitado e controlado é que se permite o questionamento das crenças e se põe de lado essa suspensão voluntária da descrença, que é a tábua de salvação de uma espécie que teve por destino ser dotada de razão.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Lassidão

Numa da estantes, estava um pequeno caderno de capa dura. Na prática, um bloco-notas. Terá já uns anos, apesar de parecer novo. O que desmente essa plausível juventude é o elástico que se apresenta lasso e incapaz de cumprir a sua função de manter o caderno fechado. Está em branco, com a excepção da primeira página, onde descubro uma lista de nomes, escrita com a minha letra, mas cujo nexo não consigo entender. Seis desses nomes eram-me desconhecidos. Os outros dois eram os romancistas László Krasznahorkai, o Nobel da literatura deste ano, e Elsa Morante, autora do romance A História. Os outros nomes, fui pesquisar, eram de um mestre zen japonês, de dois místicos medievais, de um autor, também medieval, de legendas de santos, de um psicólogo norte-americano e de um historiador holandês. Gostava de saber duas coisas: há quantos anos escrevi essa lista; o que estava a fazer aquela gente junta. Depois do nome de László Krasznahorkai estão, entre parêntesis e separadas por ponto e vírgula, duas palavras, mas não consigo decifrar nenhuma. Há uma lição, porém, que é evidente. Muitas das coisas que fazemos, se não a maioria, morre sem dar qualquer fruto. Nem tentativas são, apenas esboço que, por certo, não chegou ao estatuto de ideia. Olho o bloco-notas, a sua bela encadernação e apiedo-me dele, pelo elástico castanho bambo e pela página conspurcada pela minha letra, sem que disso tenha havido qualquer resultado. Também os objectos não devem ser usados em vão.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Docta ignorantia

Mais uma semana e estar-se-á naquele dia de azáfama preparatória que culminará com o jantar da noite de Natal. Uma semana talvez seja suficiente para a preparação dessa noite. Tal como no futebol – pelo menos, no de antigamente, que é aquele que conheço – havia uma semana para preparar um jogo que estava liquidado em menos de duas horas. Hoje, nada sei de futebol, embora ainda vá sabendo alguma coisa de noites de Natal, mas mesmo nesta sabedoria estou a caminho da docta ignorantia. Não sobre Deus, que era a douta ignorância de Nicolau de Cusa. Este sublinhava, assim, a limitação da razão humana para conhecer o absoluto. A minha, porém, é sobre as coisas mais triviais que os homens têm a pretensão de conhecer, seja com a razão, seja com os sentidos. Sou mais radical que o velho Cusano. A minha ignorância é, ao mesmo tempo, infinitamente grande e infinitamente pequena. Um problema de coincidentia oppositorum. No caso deste narrador desprovido de veia narrativa, a ignorância é sobre o infinitamente grande, sobre o infinitamente pequeno e sobre aquilo que fica entre os dois. O que perfaz uma verdadeira coincidência de desconhecimento. Um agnóstico. Mesmo o que sabe sobre as noites de Natal é mais ignorância do que sabedoria. Resta a sabedoria do futebol de antigamente, mas também essa não é uma autêntica sabedoria histórica, mas um conjunto de memórias que insistem em não ser apagadas com a passagem dos anos. Por vezes, entro por dentro de um discurso e descubro que ele é um labirinto. Descubro também que Ariadne se esqueceu de me dar o fio que me traria a bom porto. Perco-me e perder-se é ainda uma forma de ignorância, mas pouco douta.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

No princípio, era a onomatopeia

Ao ler um verso – levando a mão à boca entoei a canção inteira das onomatopeias – de Herberto Helder, ocorreu-me que todas as palavras que usamos podem ter a sua origem remota em onomatopeias, em imitações de sons naturais. O problema, porém, é se esta imaginação foi agora produzida por mim ou se é o resultado de uma leitura antiga que o tempo apagou. Sei que há quem pense que as palavras que usamos são metáforas mortas, que estando mortas passam a ter uma significação corrente, vulgar, que permite a comunicação entre nós. No princípio estava a poesia, que o tempo transformou em prosa. Contudo, a hipótese onomatopaica da origem da língua talvez seja mais interessante: seria a natureza a falar através do aparelho de fonação humano. Com o correr dos séculos, aquilo que era uma expressão criada por uma imitação directa dos sons naturais, perdeu o contacto com essa natureza, autonomizou-se e ficou submetido à memória e às regras humanas do uso da linguagem. Isto que estou a imaginar, porém, já deve ter sido pensado por alguém, mas desconheço quem, ou não me lembro por quem. Pensemos na palavra árvore. Quase ouvimos o vento passar entre os ramos, mas esta é uma palavra muito tardia, descendente da latina arbŏre. Esta terá tido um antecedente indo-europeu, e este outros que nem reconstruídos conseguimos imaginar. Deixemos esta arqueologia para os arqueólogos da linguagem. Se for aceitável a origem onomatopaica de todas as palavras, o poeta não podia ter cantado a canção inteira das onomatopeias. Faltar-lhe-ia o fôlego para projecto tão hiperbólico. Talvez ele quisesse impressionar o leitor. E o verso seguinte, separado não apenas pela mudança de linha, mas também por um ponto e vírgula, parece confirmar este desejo de impressionar o leitor ao escrever: era guerra. Como se caça uma fêmea com tanto sangue entre as ancas? Um problema impressionante e difícil de resolver. Pelo menos enquanto não soubermos que onomatopeias estiveram na origem de palavras como guerra, caça, fêmea, sangue e, de modo especial, ancas. Tivesse eu acesso a essas onomatopeias – as primeiras que saíram da boca humana – logo explicaria a estratégia de caça. Assim, limito-me a esperar que alguma fêmea me cace, enquanto procuro o arco. Elas são nisso muito melhores do que os machos, apesar destes pensarem o contrário. Elas conhecem a origem onomatopaica da linguagem, mas recusam-se a partilhá-la, a não ser com as suas filhas fêmeas, para que estas sejam, também elas, caçadoras, cheias de onomatopeias prontas a lançar do arco das suas bocas.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Uma parábola

Os dias continuam a empequenecer. O pior, para eles, é que isso não deriva de uma escolha sua, tão pouco é o resultado das suas acções. Os dias são puros, virginais, contudo não se conseguem subtrair à acção do destino. E este é injusto. Para uns dias, decretou ele a pequenez; para outros, a grandeza. O mais absurdo é que os dias pequenos se sentem culpados da sua pequenez, e os grandes, da sua grandeza. Deixaram-se contaminar pela narrativa meritocrática, dir-se-á. A verdade, porém, é que pequenez e grandeza – dos dias, note-se – são decretadas por uma entidade que nem pequenos nem grandes dominam ou sequer conhecem. Se eles conhecessem aquilo que lhes determina a dimensão, teriam outra percepção da sua vida. Os pequenos sentir-se-iam menos infelizes; os grandes, menos orgulhosos. Será isto uma parábola sobre a grandeza e a pequenez dos homens? Não, claro que não. Os homens são responsáveis. Ora se alguém tem um metro e sessenta, isso deve-se a más decisões suas. Também aqueles que têm um metro e noventa, têm-no porque fizeram boas escolhas. Sim, este texto é uma parábola, mas a sua referência são as coisas que não existem como os dias e as noites.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Um jesuíta não se reforma

Há muito tempo que não o ouvia, disse, respondendo à saudação vinda pelo telemóvel. Tenho andado ocupado. Uma viagem a Itália, assuntos de família, e actividades da Companhia. Quando é que um jesuíta se reforma, perguntei ao meu amigo, padre Lodovico Settembrini, padre Lodo, como é conhecido. Um jesuíta nunca se reforma, respondeu. Pode é não ter forças para prosseguir no caminho. Por vezes, vão me faltando, mas, apesar dos oitenta terem chegado já há uns anos, ainda resisto. Uma questão de persistência, sublinhei. Isso, respondeu, mais do que resisto, persisto, sem problemas de maior, talvez um pouco surdo e algum reumático, mas há uns santos analgésicos que ajudam a suportar as crises, disse. Na verdade, continuou, a actividade é reduzida, o que me dá tempo para ler. O que anda a ler? Jon Fosse, respondeu. Quer descobrir a razão por que ele se converteu, perguntei. Não tenho essa ilusão. O que leva as pessoas a converterem-se, nem as próprias sabem. Foi o que aconteceu consigo? Claro, uma improbabilidade, mas aqui estou. Voltando ao norueguês, prosseguiu, parece um exercício litúrgico em forma de narrativa. Há uma iteração constante, respondi, e iteração por iteração, prefiro o Thomas Bernhard. Ouvi um riso. Sim, sim, é a sua costela de cínico misantropo, mas eu acho, continuou, que, mais tarde ou mais cedo, vai preferir Fosse a Bernhard. Talvez eles sejam estações num caminho. No início, o austríaco e, no fim, o Fosse. Não foi, porém, para discutir literatura que liguei, mas para saber quando vem a Lisboa. Descobri um belo restaurante para os lados da Lapa, onde se podem experimentar pratos dos sítios por onde os portugueses andaram. Podemos juntar o grupo. Respondi, que marcasse o dia. Contudo, informei, estou condenado à frugalidade. Estamos no Advento, não na Quaresma, ouvi. Imagino, disse eu, mas, por questões de saúde, entrei para uma Quaresma sem fim à vista, a não ser aquele que está destinado a cada um. Uma cedência pontual à gula, respondeu, não é pecado mortal. Ri-me.

sábado, 13 de dezembro de 2025

A loucura da Terra

Veio a noite. Uma constatação. Contudo, há nesta constatação uma presunção que denuncia um erro do espírito. As noites e os dias não vêm nem vão. Também é uma imprecisão afirmar: caiu a noite. Não, a noite não cai. Se ela caísse, ouvir-se-ia um estrondo, alguém ou alguma coisa poderia ficar esborrachado. Nada disso acontece. Nem sequer podemos dizer que, como sucede em casa, se apagou a luz. Não há um interruptor para ligar e desligar a luz do dia. O facto é que apenas o planeta rodou sobre si mesmo e pôs-nos, por algumas horas, escondidos do Sol, o qual permanece, em aparência, estático, cabendo aos planetas o triste serviço de rodarem à volta de si mesmos, como se tivessem enlouquecido, enquanto orbitam o astro. Portanto, nem a noite nem qualquer agente humano ou divino são sujeitos da acção veio a noite ou caiu a noite. O único sujeito é a Terra que girou sobre si mesma, o que, como foi dito acima, é sinal loucura. Talvez o verdadeiro sujeito de frases como veio a noite, veio o dia, caiu a noite, levantou-se o dia seja não a Terra, mas a sua loucura. Se temos noite e dia, devemo-lo à loucura que se apoderou da Terra que, num acesso de melancolia, se pôs a girar sobre si mesma. Um dia, quem sabe, o Sol como patriarca do sistema solar, a mande internar num hospício para planetas. Então, deixaremos de ter dia e noite. Uns terão só dia; outros apenas noite. A Terra, porém, curar-se-á e ficará imóvel, como imóvel estava o deus de Aristóteles, a que este dava o prosaico nome de primeiro-motor: não se movia, mas fazia mover o mundo. Também eu gostava de ser um motor imóvel. Saiu-me um destino avesso ao desejo: sou móvel, mas de motor nada tenho.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Um mistério

Num dos livros, em segundo mão, que comprei online e que me chegou ontem, havia, por baixo da dedicatória do autor a um seu amigo, uma assinatura de posse e a indicação do mês – Novembro – e do ano – 1964. O nome é feminino e a assinatura é clara, permitindo o nome da desconhecida proprietária da obra. Procurei, dentro do livro, mais vestígios daquela mulher, em vão. A única coisa que me resta é um nome próprio composto por dois, um que caiu em desuso e outro, Maria, que parece nunca ter passado de moda, seguido de um apelido reduzido à inicial e um outro completo. A letra, apesar de muito bem desenhada, afasta-se dos estereótipos da letra feminina da época. Quem em 1964 leria, em Portugal, Ignazio Silone, o autor do pequeno romance A Raposa e as Camélias? Talvez a detentora do livro fosse professora num Liceu de província. Para matar as horas enxameadas da melancolia do interior, lia romances. Talvez fosse uma leitora contumaz, uma intelectual em formação, em tempos de universidade. Não. Prefiro-a como professora, ainda no início de carreira. Sem marido. Claro que ela, tal como a vejo dentro da sua letra, merece um marido, mas esse tipo de coisas pouco tem que ver com o mérito. Há nela, percebo-o pelo modo como coloca o hífen entre Novembro e 1964, uma beleza discreta, rodeada por um leve pudor e uma segurança que afastaria os homens. Todos? Ela esperava que não, disso estou certo. Se casou, perguntam-me. Ainda não o sei. Só saberei se, um dia, num outro livro comprado num alfarrabista vier uma assinatura de posse com aquela letra, aquele nome adornado com o acréscimo de um apelido. Se ela tivesse menos vinte anos, por certo não me importaria, tal como a vejo no desenho da sua letra, que fosse o meu. Não foi, ela não tinha menos 20 anos.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Falibilidades

Há pouco, nem sei a razão, pensei que hoje era dia 12 de Dezembro. Enfim, acertei no mês, apesar de falhar no dia. E quando não se falha no dia, há-de ser na hora ou no minuto, pois quanto aos segundos, são tão fugidios que falhar neles não é falhar, mas acertar por aproximação, umas vezes por excesso; outras por defeito. O meu nível de falibilidade já está no grau três. O grau quatro é falhar no mês, e o cinco é não acertar no ano em que se está. A partir daí é inútil introduzir novos valores na escala de falência temporal. Quando se atinge o grau quatro, a situação é grave. A patologia avançou mais do que devia. Trocar o dia 11 com o 12 ainda é aceitável, trocar o mês, mesmo para um ser humano, é falibilidade em excesso. E há quem o troque. Diga: Ah! Este Junho está frio, até parece que estamos em Dezembro. Mais raro, também há quem pense: este ano de 1987 está a ser difícil, ou que afiance que estamos em Dezembro de 2056. Haverá tratamento para isso? Não sei. Quando vou ao médico nunca lhe falo do assunto, senão manda-me fazer pilates. Já fui assim insultado por dois, por motivos diferentes. A princípio pensei que ele estava a falar de Pilatos, de Pôncio Pilatos. Achei estranho que a conversa derivasse para acontecimentos bíblicos e nem percebi a que propósito eu devia fazer de Pilatos. Ainda olhei para as mãos, para ver se as tinha de lavar. Tudo em ordem. E Pilatos não era pilates. Depois, percebi que era qualquer coisa tipo ginástica. Franzi o sobrolho. Disse que sim senhora, cumprimentei o médico, saí do consultório, paguei a consulta. Chegado à rua perguntei-me: em que raio de ano estamos nós? Não consegui perceber. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

O primeiro Maigret

Acabei de ler o primeiro caso do comissário Maigret, Pietr, o letão. Provavelmente, já o teria lido há muito, numa época distante em que lia os casos de Maigret. Simenon não é um escritor de policiais. É um grande escritor, mesmo nos policiais. Não é a lógica que dirige o inquérito, como em Sherlock Holmes, mas a manifestação da humanidade no criminoso, humanidade essa marcada pela finitude e pela falibilidade. Isto torna o criminoso num homem como outro qualquer. É a sua humanidade que o conduz ao crime. E é isso que o autor explora neste primeiro romance. Não é apenas esta atenção à humanidade, à sua condição existencial, que é fundamental. É também a concepção de justiça. Refiro-me à justiça retributiva. Simenon não nega que a justiça deva retribuir o mal com o mal (qualquer pena é sempre a aplicação de um mal para punir o mal), mas, como no caso deste primeiro romance, a humanidade do criminoso é essencial para que o comissário da polícia lhe permita escolher a dignidade ou a infâmia. Na cultura ocidental, há duas execuções que são arquetípicas. A de Sócrates, que se auto-executa, ao tomar a beberagem venenosa, e a de Cristo, que é submetido à mais infamante das execuções. Só um deus – neste caso, o filho de Deus –pode suportar a cruz, sem que a sua humanidade seja aniquilada. Na morte de Sócrates, há uma afirmação de uma dignidade humana que transcende a aplicação mais radical do direito penal. E Maigret, nesta primeira aventura, surge como um juiz moral que dá a escolher ao culpado a natureza da sua morte.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Monotonia da secretária

Ainda não estou preparado para caminhar à chuva. Por isso, fiquei em casa em vez de me submeter à agrura dos elementos. Tenho de comprar equipamento adequado, mas hesito, hesito…. Não sei se, mesmo equipado para enfrentar o mau tempo, me apetecerá ir para a rua e expor-me ao delírios chuvosos de S. Pedro. Dir-me-ão – e com razão, reconheço – que estamos em tempo de chuva. Estamos. Diante de mim tenho o romance Fontamara (1930), de Ignazio Silone, publicado em Portugal em 1959. A editora é a Publicações Europa América, que chegou a ser uma das grandes editoras do país, mas que não resistiu às intempéries. O romance mais conhecido de Silone é Vinho e Pão, que, um dia destes, talvez leia. Lembro-me, perfeitamente, de o ver nas livrarias, mas nunca o cheguei a comprar, até que, há dias, decidi adquiri-lo a um alfarrabista. O título é claramente eucarístico, embora a temática, segundo me constou, seja mais de natureza política e, ao mesmo tempo, existencial, o que estaria no espírito da época. A obra é de 1936. Isto recordou-me um quadro de Júlio Pomar, O Almoço do Trolha, que é, na verdade, uma refiguração da Sagrada Família, na sua estrutura triangular. Seria interessante – e talvez tenha já sido feito – estudar como as figuras do espírito revolucionário – nomeadamente, nas diversas artes – dos séculos XIX e XX se fundam na simbólica do cristianismo e que, sem essa simbólica, provavelmente nunca teriam existido. Somos aquilo que somos, e o que somos enraíza-se em Atenas, Roma e Jerusalém. Convém dar atenção às três e não deitar nenhuma borda fora. É o que me ocorre neste dia de chuva, que me impediu – quero dizer: me deu uma justificação ou uma desculpa – de ir fazer a minha caminhada diária. O relógio – um smartwatch que me controla a existência – está a mandar-me mexer, como quem diz: põe-te a andar. Deve estar farto da monotonia da secretária.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Estratagemas da natureza

A neta mais nova esteve cá todo este fim-de-semana. Veio em busca de apoio da avó em todas aquelas disciplinas do nono ano que detesta. Uma agenda de trabalho rigorosa, mas com espaços para respiração. Os seus quase quinze anos encheram a casa. Agora, voltou para Lisboa; o dia anoiteceu rapidamente. Os netos são uma espécie de segunda luz. Haverá nesta relação entre avós e netos um estratagema da natureza. Oferece aos mais velhos uma esperança para o tempo que lhes resta. Uma promessa de que a vida continua, não a pessoal, mas a de alguma coisa inexprimível por palavras, mas que se sente no amor entre gerações, nos olhares de expectativa, nos projectos que sendo dos netos, ainda são, por instantes, os dos avós. Agora, vou procurar um jogo de Xadrez a sério. Para o meu neto, claro. Para o ensinar a jogar. O Xadrez é um jogo militar, mas também a vida é milícia que exige um pensamento estratégico claro. O peão avança duas casas e as brancas preparam-se para ocupar o centro, apesar de o negrume da noite ter triunfado sobre a luz anémica do dia.