A luz branca deste domingo cai sobre a cidade como um véu. E
assim veladas as pessoas passam devagar na avenida, respiram lentamente,
esperam por certo que o sol as aqueça. Algumas deambulam atreladas a pequenos
cães. Há quem corra solitário para alcançar a boa forma que nunca haverá de
chegar. Um ciclista, daqueles que se equipam da cabeça aos pés, apeia-se, abre
o grande caixote do lixo verde e deita qualquer coisa lá dentro e regressa, em
paz com a sua consciência, ao selim e à azáfama de pedalar. As árvores, medito,
têm um singular destino. Umas despem-se no Inverno, enquanto as outras, tomadas
por um pudor ancestral, persistem em manter o folhedo que as cobre. Há quem
diga que possuem folha persistente. Prefiro pensar que sofrem de um embaraço
contumaz. E é para isto que serve a luz branca que cai, naquele segredo
invisível da onda-corpúsculo, sobre as coisas. Para que alguém as possa ver e
descrever, não na sua essência, mas nos acidentes em que elas se manifestam. Os
carros teimam em não deixar de passar. Vão lentos, temerosos, também eles são
um acidente que nenhuma essência salvará. Os domingos são sempre dias
incompreensíveis.