domingo, 15 de fevereiro de 2026

Cascas de banana

Que pena, pensei, Fevereiro não ter trinta dias. Hoje, ao chegar à meia-noite, teríamos atingido o meio do mês. Assim, ocorreu ontem, mas pelo facto inusitado de o mês ser duplamente irregular no que toca ao número dos seus dias, nem dei pela efeméride. Foi nesta ignorância que me abalancei a fazer a caminhada matinal, uma parte à chuva, mas era apenas aquela chuva molha-parvos, o que me permitiu continuar, embora não informe o leitor se a chuva me molhou ou não. A caminhada de hoje ofereceu-me a primeira de três descobertas que fiz esta manhã. Foi uma revelação estética. Em diversos troços do caminho, encontrei cascas de banana no chão. A primeira reacção foi verberar quem as atirou para onde estavam em vez de as colocar no lixo. Depois, percebi que o objectivo era decorar as ruas, uma iniciativa estética, uma instalação, podemos dizer, para ajudar os transeuntes a contemplar a beleza da degradação do amarelo em tons de castanho, cada vez mais escuros. Sim, é verdade, alguém pode escorregar, cair e partir uma perna, mas esse é um efeito colateral. Os efeitos colaterais dolorosas não são apenas causados pela guerra. A beleza gera-os com tanta frequência quanto uma operação militar. Vejam-se certos casamentos. A segunda descoberta deixou-me de rastos. Na verdade, não é ainda uma descoberta, mas uma pré-descoberta, uma anunciação. Há muito que me tinha tranquilizado com o facto de no centro da nossa galáxia existir um buraco negro, daqueles que deglute tudo o que dele se aproxima, prendendo inclusive a luz. Cientistas anunciaram, agora, que há um modelo explicativo mais conforme com os dados empíricos e que dispensa a ideia de buraco negro. Trata-se, se bem percebi, de matéria escura, composta por fermiões, seja isso o que for. Fico na expectativa. Se a teoria encontrar corroboração, bem vinda matéria escura, sombria como a de uma casca de banana em putrefacção, e adeus buraco negro. Ou este ainda terá uma hipótese de escapar e continuar a viver no centro da galáxia, onde os preços da habitação são quase tão altos quanto os de Lisboa? A terceira revelação talvez tenha sido a que mais me tocou. Li, não estou a mentir, que comer uma banana às 11 horas é como lançar um obus contra o colesterol e a hipertensão, coisas que colecciono. Depois, comecei a pensar. Qual o efeito se for comida às 10:59 ou às 11:01? A banana perde o seu poder curativo? E quanto tempo leva a comer uma banana? Imaginemos que uma pessoa dá a primeira dentada às 11 horas em ponto, mas começa a mastigar às 11 horas e um segundo. Será que a banana já perdeu o seu efeito? Imagino, mais do que imaginação é certeza, que aquelas cascas de banana que encontrei afinal não eram objectos de uma instalação artística, mas o resultado do desespero de pacientes com colesterol elevado e hipertensão que não conseguem acertar com o momento exacto – as 11 horas em ponto – em que devem comer a banana salvadora. A vida é difícil, dá-nos soluções que o tempo não permite aplicar.

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