Estou com um espírito de adolescente em férias, embora tenha alcançado o estatuto de estar em férias contínuas, bênção que não cai sobre adolescentes. Bem o sei. O espírito viaja entre filmes e leituras, embora o corpo se possa entreter com outros eventos, que não vêm ao caso. O romance de Benito Pérez Galdós, Fortuna y Jacinta, promete ocupar-me largas horas com as suas mil e tantas páginas. Será o ócio que me leva a coscuvilhar na Madrid do século XIX e num triângulo amoroso entre Juanito Santacruz, Jacinta e Fortunata. Podemos afirmar, sem medo de errar, que Fortunata y Jacinta está para Espanha como Os Maias está para Portugal. São os dois grandes romances realistas ibéricos. Os meios sociais, contudo, são diferentes. O centro social do romance de Eça de Queirós é a aristocracia, a família dos Maias, enquanto o do romance de Pérez Galdós é a burguesia mercantil e as classes populares. Esta leitura do romance espanhol é cruzada com o cinema. Vi a adaptação cinematográfica, por Sidney Lumet, de O Crime do Expresso Oriente, de Agatha Christie. Pensei, porém, que há coisas mais interessantes em que gastar o tempo. Por isso, comecei – vejo os filmes por episódios, digamos assim – a ver O Beijo, do dinamarquês Bille August, baseado num romance de Stefan Zweig, Ungeduld des Herzens. No filme de Lumet, apesar da excelência da realização, não gostei do Poirot proposto no filme. Excessivamente histriónico, pareceu-me. Pelo menos, não é o Poirot que imaginava no tempo em que lia os romance de Agatha Christie. Ao começar a ver O Beijo, senti-me de imediato em casa. A casa, a minha casa, é o cinema europeu, com uma certa inclinação para o mundo escandinavo. Inclinação essa que está a contaminar-me na literatura. Por falar em casa, o mundo nórdico é mais a minha casa do que o mundo de Madrid, apesar da proximidade. Gosto muito de Espanha, mas nunca a consegui pensar como um lar onde me acolhesse. A não ser na Galiza, mas a Galiza não é Espanha. Agora, visto que excedi em muito o que queria escrever, vou fazer uma caminhada como pena pela imoderação.
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