terça-feira, 8 de setembro de 2026

Decisões firmes

Num acesso excessivo de curiosidade, comprei um romance português de um autor desconhecido, ou que eu desconhecia. Reparei depois que vinha galardoado com um prémio literário. Talvez a capa e o título tenham pesado na decisão. Comecei a lê-lo e, passadas umas páginas, comecei a sentir arrependimento. Por que razão comprei mais um livro?, perguntava-me, escondendo-me o vício que tomou conta da minha alma. A prosa é suficiente e o protagonista, como não podia deixar de ser, vive numa melancolia existencialista, mas, como também é óbvio, é um grande amante, embora a amada nem pareça muito disponível para os exercícios amorosos daquele cavaleiro andante deslocado no tempo. Tomei, mais uma vez, a firme decisão de só comprar e ler livros que o tempo tornou clássicos. Pergunto-me, agora que escrevo isto, daqui a quantos dias terei de tomar uma nova decisão firme de só comprar e de só ler aquilo que vale a pena. O tempo de uma vida é curto e a literatura universal parece não ter fim. Influenciado pela minha veia kantiana, formulo, escudado no imperativo categórico, a máxima de não ler nunca mais aquilo que não merece gastar os meus olhos. Pergunto-me se esta máxima pode ser universalizável sem contradição. Descubro que universalizável ela é, mas que entra em contradição comigo. Se todos assim fizessem, quem leria uma linha do que escrevo? Talvez ponha de lado o meu kantismo e me torne um utilitarista. Isto está a ficar doentiamente hermético, e Stuart Mill era claro como a água.

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