Um artigo sobre Tomasi de Lampedusa lembrou-me não apenas o seu grande romance, como o filme, feito a partir dele, por Luchino Visconti, O Leopardo. Apesar de o ter visto várias vezes, cometo sempre um erro quando penso sobre o início e o fim do filme. Começa com o rezar do terço pela família do príncipe. Até aqui não há erro. Contudo, quando considero o final, a minha memória falsifica-o sempre. Penso no grande baile aristocrático, ou de compromisso aristocrático-burguês. Recordo o momento em que Don Fabrizio Salina dança com Angélica Sedara, a noiva burguesa do seu sobrinho predilecto. E contudo, o filme não acaba aí. O príncipe percorre as ruas desertas e poeirentas. A certa altura, depara com um sacerdote, e respectivo acólito, que se dirigem a uma casa vizinha para administrar a extrema-unção a um moribundo. O que me espanta é a selectividade da minha memória. Prefere a chegada de um mundo novo, onde, por instantes, os Salinas e os Sedara se misturam, à melancólica meditação de Visconti. A cena mostra-nos que não apenas o mundo aristocrático dos Salina está moribundo, mas também que o novo mundo, agora começado, está já marcado pela morte futura, precisando apenas que lhe seja levado o viático e dada a extrema-unção. O que é novo contém já a sua morte, mas a memória parece preferir a ilusão da eternidade que habita tudo o que começa.
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