Por vezes, deparamo-nos, numa obra ficcional, com um certo objecto e ficamos na dúvida se ele tem uma existência na realidade ou meramente ficcional. Foi isso que me sucedeu há pouco. Tive de fazer algumas pesquisas online para me certificar que a realidade não tinha produzido o tal objecto, que era apenas uma invenção literária, sem uma referência no mundo físico. Omito a denominação do objecto e a obra onde ele existe. Contudo, há um problema que me importuna. Não é tão grave que chegue para me perturbar. Esse objecto existe ou não na realidade? Ora, a realidade não é apenas composta por objectos físicos. Um número não é um objecto físico, nunca ninguém viu um número. Contudo, ninguém duvida da existência de números. Podemos dizer que são ficções para quantificar a realidade. Ora os objectos ficcionais têm também eles realidade, mesmo que não se liguem a nenhuma referência do mundo físico. Antes de o escritor o ter inventado, esse objecto não existia. Passou a existir, ao ser inventado e inscrito numa obra de ficção. Por isso, também existem centauros, fadas e todos esses seres que foram concebidos, gerados e nascidos da imaginação. É possível, mesmo, que a imaginação não imagine nada, mas que seja um órgão de visão que vê coisas noutros mundos possíveis, que os reporta ao mundo em que vivemos, pensando ser criadora. Isto anula a diferença cartesiana entre ideias adventícias, como a de cor, som, etc., que nos chegarão (advirão) de fora através dos sentidos e as ideias factícias, como quimera, sereia, etc., que seriam fabricações da mente. Todas as nossas ideias – com excepção das inatas, embora David Hume as negue, talvez por falta de imaginação – são ideias adventícias. Umas chegam-nos do nosso mundo; outras, de outros mundos, sem que tenhamos consciência de que estamos a observá-las. Há mundos, onde existem sereias, mas não existem seres humanos. Contudo, há sereias que escrevem romances com seres humanos. Espreitaram, sem saberem como, o nosso mundo. Claro que não creio em nada disto. Tive uma sessão de pilates e depois daquelas máquinas e aparelhos me espremerem e esticarem o corpo, chego a casa e começo a delirar. Consigo mesmo sonhar com mundos onde não existem ginásios, nem aparelhos, nem máquinas para melhorarem o corpo. O pior é que não sei onde comprar bilhete para uma viagem para esses mundos, e resta-me escrever coisas sem nexo, o que é uma característica deste mundo em que vivo.
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