Há dias que, por aqui, não se vê o sol. Um céu de cinza, mas uma temperatura razoável. Depois de falhar vários vezes, voltou hoje, há pouco. Veio cintilante, a convidar para a praia. Penso no assunto, analiso as possibilidades e escolho o bar adequado para esta hora. Consta que a luz solar faz bem à vitamina D. Se não a ela, a quem tem falta. No outro dia descobri que estava quase em défice. Como não gosto de estar em dívida sejam com quem for ou com o que for, vou amealhar vitamina D, para pagar ao corpo aquela que lhe falta. Isto de ter um corpo sai caro, mas a alternativa, não o ter, não me parece simpática. Sem corpo não se corre riscos. Com ele corre-se grandes riscos, entre eles o de o perder. Olho para a rua e penso que tenho de pagar a dívida ao corpo que me transporta e me permite escrever as maiores idiotices que me ocorrem. A culpa das idiotices não é do corpo, por falhado que esteja em vitamina D, mas do espírito, do meu espírito. Talvez também ele precise de apanhar sol e banhos de mar, ou de observar as sereias e deixar-se levar pelos seus cantos. A verdade é que acabei de acordar de um sono involuntário, onde um sonho também involuntário me trouxe a presença de alguém que não conheço, mas que tem o nome, o corpo, o modo de ser de alguém que conheço, mas numa versão com menos idade. Uma sereia, por certo, cujo canto abriu uma brecha num corpo a precisar de vitamina D.
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