quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Um preconceituoso

O Iluminismo tinha como um dos seus inimigos o preconceito. Essa inimizade ao preconceito manteve-se e acabou por penetrar na cultura popular. Também é verdade que autores estimáveis revalorizaram, do ponto de vista filosófico, o preconceito. Não é, todavia, esse debate que me interessa, mas o meu preconceito. Apesar de educado na estrita disciplina iluminista, com especial destaque para Kant, sou um preconceituoso. Todo este intróito, sem pés nem cabeça, deve-se à minha releitura do romance O Lobo das Estepes, de Hermann Hesse. Tinha-o lido há muito, mesmo há muito. E tive grande relutância de voltar a ele, pois a ideia difusa que dele tinha dizia-me que não teria paciência para aquele universo. Um preconceito. Este preconceito tem um fundamento. A minha ignorância. Quando li o romance não tinha grande capacidade analítica para compreender o que o autor ali estava a fazer. Tinha gostado muito, mas a minha leitura era excessivamente ingénua. O meu preconceito actual, contra o romance, nascia dessa ingenuidade. Quando, talvez numa noite de insónia, e não me faltam noites de insónia, peguei no livro, pensei que não passaria da segunda ou terceira página. Como aqui escrevi, num post anterior, descobri que estava a gostar. O romance era muito mais sofisticado do que eu, na altura, conseguia compreender. A obra inscreve-se plenamente no modernismo e na problemática da crise e fragmentação da subjectividade moderna. Antecipa muitas questões posteriores. Era compreendido, no tempo em que o li, como um ícone da contracultura dos anos sessenta e foi desse modo que o lera in illo tempore. Estamos – pelo menos eu estou – cheios de preconceitos. E como todos os preconceitos, também os meus nascem da ignorância. Enfim, não sou lá um grande iluminista. Por vezes, a vida dá-me uma segunda oportunidade para desfazer a crença pateta que formara, mas nem sempre.

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