Romano Guardini, um dos mais interessantes teólogos alemães do século XX, escreveu, no início do seu O Mundo Religioso de Dostoievski, o seguinte: A palavra «povo», quando utilizada por Dostoievski, exprime a essência de toda a verdade, profundidade e princípios humanos. O povo é, simultaneamente, o homem numa posição indefesa, atingido pelo destino, explorado por outros homens mais rápidos e hábeis, oprimido pelos fortes. Hoje, porém, nem Dostoievski conseguiria ver no «povo» aquilo que via no século XIX. Não é que não existam homens em posição indefesa, homens atingidos duramente pelo destino, explorados e oprimidos por outros homens. Contudo, o desenvolvimento técnico e comunicacional, apesar de não libertar o «povo», mata nele a capacidade para exprimir qualquer coisa de autêntico. Não está nele nem a essência da verdade, nem a profundidade que a terra lhe dava, nem os princípios humanos que o tornavam mais próximo daquilo que é eterno. E isto é o pior que pode ter acontecido à humanidade, pois não se tratou de uma transferência dessas virtudes encarnadas pelo «povo, segundo Dostoievski, para outras classes sociais. Aconteceu que esse reservatório último de humanidade foi, primeiramente, corrompido e, depois, destruído. Nenhuma verdade subsiste. Toda a autenticidade foi tomada de assalto e aquilo que se vê é apenas um regime em que todos usam máscaras. Umas mais ricas, outras mais pobres.
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